Diamantina resiste à privatização do Parque Estadual do Biribiri
Moradores, movimentos sociais, deputados e representantes da prefeitura de Diamantina se reuniram nesta sexta-feira (4/9/26), na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais (ALMG), para contestar a tentativa do governo mineiro de privatizar o Parque Estadual do Biribiri. A audiência pública discutiu a concessão da área à iniciativa privada e a cobrança de entrada, em meio à defesa da mobilização como forma de barrar o plano.
Mobilização vira a principal aposta contra a concessão
A deputada Beatriz Cerqueira, autora do requerimento ao lado de Bella Gonçalves, ambas do PT, propôs a criação de uma mesa de diálogo com sociedade, movimentos sociais, prefeitura, parlamentos estadual e municipal e universidades de Diamantina. O objetivo é buscar soluções para a conservação do parque, tratado pelos participantes como patrimônio natural e cultural do município.
“A privatização é um processo estruturante do governo estadual. Essa não é uma luta de curto prazo”, argumentou Beatriz Cerqueira. Ela disse ainda que o governo estadual avançou esta semana na tentativa de privatizar também o Parque Estadual do Rio Doce, no Vale do Aço, e lembrou a tentativa de entregar à iniciativa privada o Parque da Águas, em Caxambu (Sul de Minas).
Bella Gonçalves reforçou a crítica ao processo de concessão e defendeu a continuidade da mobilização. “Não podemos baixar a guarda. Vivemos em um Estado que está vendendo todo seu patrimônio para bancos”, acusou.
A representante do movimento “O Biribiri É Nosso”, Tarcila Mantovan Atolini, disse que os moradores precisam manter a pressão para impedir a concessão. “A gente ainda vai enfrentar muitos ataques, então temos que manter (a mobilização). Resistir é preciso”, completou.
Na mesma linha, moradores relataram lembranças ligadas ao parque e à convivência com as cachoeiras. Rosa do Vale resumiu esse sentimento: “temos direito de nadar em nossas cachoeiras de forma gratuita. Enquanto essa luta existir, nós vamos resistir”.
Governo quer concessão por 30 anos e cobrança na entrada
A proposta do Governo do Estado prevê conceder a gestão do parque à iniciativa privada por 30 anos. Nesse período, a previsão é investir R$ 38 milhões, sendo R$ 3,6 milhões em infraestrutura e R$ 1,5 milhão em manutenções e reparos, além de outros investimentos mensais. A justificativa oficial é ampliar os serviços oferecidos, aumentar o número de visitantes e impulsionar o turismo.
Hoje gratuita para todos, a entrada passaria a custar R$ 30,00 por pessoa, além de R$ 10,00 pelo estacionamento. O projeto também prevê privatizar 30% dos 17 mil hectares do parque, com possibilidade de ampliar a área sem necessidade de consulta da população, como estabelece o edital inicial.
Os argumentos do Executivo foram rechaçados pelos participantes da audiência pública. Para Tarcila Atolini, cobrar para entrar pode afastar quem hoje usa o parque e não teria condições de pagar. “O parque não é só natureza e lazer; é remédio, é sagrado, muitas pessoas o utilizam com esses fins”, explicou.
O advogado do Movimento O Biribiri É Nosso, Marchel Alcântara, afirmou que a privatização pode desequilibrar elementos como fauna, flora, espécies endêmicas, pinturas rupestres e o espaço das manifestações culturais. Ele disse que o aumento do público pode afetar o equilíbrio das águas, prejudicar animais e provocar perda de espécies. “Estudos de impacto ambiental do IEF não contemplam toda a dimensão do que isso pode acarretar”, critica.
Heron Laiber Bonadiman, reitor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), afirmou que o Executivo usa o desenvolvimento como justificativa para conceder um bem da população e cobrar pelo acesso. “O debate não pode ser contaminado com premissas de que a concessão vai melhorar e gerar lucro. Para quem e como?”, indagou ele.
Rafael Lima Ribeiro, coordenador de Extensão da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg) em Diamantina, acusou o projeto do governo de violar o meio ambiente, a saúde e a cultura da cidade. “Estamos sendo transformados em visitantes em nossa própria casa”.
Nágila Raquel Aguilar, controladora Geral de Diamantina, disse que o Executivo municipal quer uma solução que respeite a vontade geral e busque consenso entre população e governo. Segundo ela, o prefeito Geferson Giordani Burgarelli, o Paquito, entregou ao governador um abaixo-assinado recebido dos movimentos sociais e pediu a paralisação de todos os atos da privatização até que a negociação com a população seja concluída.
Ao ser informada pela deputada Beatriz Cerqueira da continuidade do processo, Nágila Aguilar se comprometeu a avisar ao prefeito para que cobre a promessa do chefe do Executivo.
As informações são da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.









