Salão de espera do Céu

Ômar Souki
Maria Simma, uma mística austríaca, define o purgatório por meio de uma imagem: “É uma invenção genial da parte de Deus. Imaginemos o seguinte: Um dia uma porta se abre e aparece para você um Ser extraordinariamente belo, mas tão belo como nunca tenha se visto sobre a Terra. Você fica fascinado, deslumbrado com esse Ser de luz e beleza. Tanto mais que esse Ser lhe revela que é louco de amor por você. Você não poderia imaginar ser assim tão amado. Percebe também que tem um grande desejo de atraí-lo para si, de abraçá-lo. E que o fogo de amor que já lhe inflama o coração incita você a lançar-se nos braços dele. Mas, nesse exato momento você percebe que há meses não se lava: cheira horrivelmente mal, seu nariz escorre, seus cabelos estão sujos e colados, que há grandes e terríveis manchas em suas vestes etc. Então compreende que não pode apresentar-se nesse estado, que, antes de tudo, é necessário ir lavar-se, tomar um bom banho e, em seguida, voltar depressa para tornar a vê-lo. Mas, o amor que nasceu em seu coração é tão intenso que o atraso causado pelo banho é absolutamente insuportável. A dor da ausência, mesmo que dure apenas alguns minutos, é uma queimadura atroz em seu coração, pois é proporcional à intensidade da revelação do amor. É uma queimadura de amor. O purgatório é isso: um atraso imposto pelas nossas impurezas. É uma queimadura de amor que faz sofrer terrivelmente. É uma nostalgia de amor. É precisamente essa nostalgia que lava o que ainda é impuro em nós. O purgatório é um desejo louco de Deus, o Deus que já conhecemos, que já vimos, mas ao qual ainda não estamos unidos”.
Ao ser perguntada sobre quais são os pecados que mais arrastam as pessoas para o purgatório, ela responde: “são os pecados contra a caridade, contra o amor ao próximo, a dureza de coração, a hostilidade, a calúnia, a falta de perdão. A maledicência e a calúnia são as maiores máculas que precisam de uma longa purificação”.
De acordo com Fulla Horak, uma mística polonesa, todo pecado—por menor que seja—deve ser expiado aqui ou lá: “Alguns pensam que após uma confissão honesta, antes da morte, poderão entrar no Céu, mas isso não é verdade. O purgatório é uma oportunidade que Deus nos oferece para o nosso amadurecimento, para aqueles que não desenvolveram suficientemente o seu espírito”. Sugere algumas perguntas que devemos nos fazer com frequência: “Já esgotamos todas as possibilidades de fazer o bem? O que ainda nos falta para o cumprimento da vontade de Deus? O que devemos trabalhar ainda para chegar aonde deveríamos ter chegado? O quanto deveríamos ter feito, mas não fizemos? O quanto ficamos apegados à nossa vontade ou às coisas exteriores”.
Tanto Simma quanto Horak garantem que o sofrimento nesta vida tem mais valor purificador do que do lado de lá. Por isso, devemos aceitá-lo com paciência e resignação. Aconselham a submissão à vontade de Deus, a obediência aos mandamentos e o cultivo da humildade. Quanto mais acolhermos nossos desafios e dores e os ofertarmos pelas almas do purgatório, tanto menor será o nosso tempo de permanência nesse salão de espera do Céu.








