Minas Gerais

Ore e trabalhe

Ômar Souki

Hoje, dia 11 de julho, é o dia de São Bento, que no ano 534 escreveu a Regra de São Bento, um livro de 73 capítulos curtos, que, além da oração e do trabalho, também enfatiza o silêncio, o recolhimento, a caridade e a obediência. Foi, assim, criada a Ordem dos Beneditinos, que permanece viva e atuante, seguindo as mesmas diretrizes criadas há cerca de 1500 anos. Dessa ordem religiosa saíram 23 papas, 5 mil bispos e cerca de 3 mil santos canonizados. Conheci pessoalmente três luminares beneditinos: Thomas Keating, William Meninger e Bernardo Bonowitz.

Participei de um retiro espiritual com Thomas Keating, em Belo Horizonte, em 2003, que—na época com 80 anos—demonstrava incrível vitalidade e clareza intelectual. Foi o meu primeiro contato com a contemplação cristã, baseada em períodos de 20 minutos de quietude, nos quais deixamos os pensamentos passarem e nos colocamos à disposição de Deus. É uma prática comum nos mosteiros beneditinos, que consiste basicamente em permitirmos que a Divina Presença se manifeste e aja em nós. Para facilitar o exercício—todas as vezes que tivermos alguma distração—repetimos   uma palavra que pode ser, à nossa escolha, “Deus”, “Abba”, “paz”, “amor” etc. Desde aquela época, todas as manhãs busco por esse silêncio em meu quarto ou junto à natureza.

Com William Meninger encontrei-me em 2004, em São Paulo, durante um outro retiro sobre o mesmo tema.  Ele disse o seguinte: “Depois que começar a praticar a oração contemplativa, espero que você nunca pare, pois, à medida em que avança na prática, cada vez mais ela irá se estender a todo o seu dia, até que você atinja a atitude contemplativa. O resto do dia fica ‘contaminado’ pela atitude contemplativa. Dedique 20 minutos pela manhã e à noite. Somos criaturas de hábitos, portanto é bom que tenhamos um horário marcado para essas práticas. Durante o dia, tanto quanto possível, eleve seu coração a Deus”.

Em 2005 encontrei-me, também durante um retiro, desta vez no Rio de Janeiro, com Bernardo Bonowitz. Adquiri um de seus livros, Alegria que viene de la trapa (Alegria que vem do mosteiro), no qual ele afirma que Jesus foi o primeiro monge: “Jesus não era monge para ser feliz, para sentir-se cômodo, mas sim, para se consagrar ao Pai. Coisa incomum, coisa magnífica, coisa rara: passar a própria vida, toda a própria vida, minha vida, não procurando a minha felicidade pessoal, mas sim, querendo agradar a Deus. […] A única coisa que Jesus queria não era receber, mas sim, ser recebido. Talvez seja por isso que cada monge canta no dia de sua ordenação: ‘Receba-me Senhor, segundo a sua palavra e eu viverei, e não serei confundido em minha esperança” (p. 105).

Foram três seres humanos que tiveram grande influência em minha espiritualidade. São filhos espirituais de São Bento, daí a minha eterna gratidão tanto ao santo, quanto a esses seus abençoados filhos. Depois do aprendizado advindo das profundezas do silêncio, posso dizer, com segurança, que me tornei mais centrado e cada dia mais ávido por desfrutar da Divina Presença, que habita em mim.

Por Fernando Rodrigues - Redação Portal G37

Fernando Rodrigues é diretor do Portal G37 de Notícias, sediado em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sua trajetória está ligada à imprensa regional e à história do jornal Gazeta do Oeste, veículo do qual assumiu a direção após a morte de seu pai, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, em 2004. Em 2018, acompanhou a transformação definitiva do jornal para o ambiente digital, processo que consolidou o Portal G37 como continuidade dessa trajetória no jornalismo local e regional.

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