Divinópolis

Desacelere!

Ômar Souki

Ao aproximar-me do caixa de uma das lojas da drogaria Araújo, me deparei com uma prateleira de livros. Um deles saltou à minha vista: As coisas que você só vê quando desacelera, de Haemin Sunim. Mesmo antes de folheá-lo previ que devia tratar de algo que me interessava, pois o título já apontava para a urgente necessidade que temos de—durante a nossa caminhada—encontrar tempo para sentir o perfume das flores. 

Nele encontrei a história de um homem que, já aos 20 anos, devido à sua extraordinária inteligência, havia se tornado magistrado de uma aldeia. Mas o sucesso lhe subiu à cabeça e ele se tornou arrogante e vaidoso. Certo dia resolveu visitar um monge para pedir conselhos, mas o sábio apenas lhe disse que ele deveria evitar o mal e fazer o bem. Isso o deixou irritado e ele respondeu: “Isso é tudo que tem a me disser? Até uma criança sabe disso”. Então, afastou-se apressadamente do monge, e, ao sair, bateu a cabeça no batente da porta. O monge então o advertiu: “Se você abaixar a cabeça, não vai esbarrar em problemas” (p. 90). E eu acrescentaria: “Se andar mais devagar e prestar atenção por onde anda, você vai evitar muitas dores de cabeça”.  

O autor do livro, Haemin Sunim, foi professor de meditação no Hampshire College, nos Estados Unidos. Isso já o qualifica a escrever sobre as coisas que só vemos ao desacelerar. E, para andarmos um pouco mais devagar, nada melhor do que a prática assídua da meditação.

A permanência no aqui, agora, é um presente de Deus. Mas não é fácil.  Nossas experiências passadas moldam a nossa visão de mundo e influenciam as nossas expectativas com relação ao futuro. Com frequência sentimos culpa e nos acusamos pelos erros passados. Também nos preocupamos com o futuro planejando mudanças e estabelecendo novas metas. Andamos rápido e estamos ansiosos para prever eventos e nos prepararmos para eles. Enfim, o nosso viver é um saltar do passado para o futuro e vice-versa, vivendo apressadamente e nos distanciando do presente, o único tempo que está, de fato, em nossas mãos.

Jesus nos aconselha: “Entre em seu quarto interior. Feche a porta. Ore a seu Pai em segredo. E, o seu Pai, que está em segredo, vai recompensar você!” (Mateus 6, 6). Quando queremos recompensar alguém, nós lhe damos um presente. Algo semelhante acontece quando entramos em nosso “quarto interior” e silenciamos o nosso coração e a nossa mente: Deus nos dá o presente! A maior recompensa que existe é o próprio presente, o aqui, agora! Durante a oração silenciosa, ou meditação, aquietamos os pensamentos do passado e as preocupações com o futuro. Contemplamos o presente.

Ao desacelerarmos conseguimos encontrar tempo e disposição para encontrar o presente que Deus nos preparou no silêncio. A agitação contemporânea impede a percepção plena do presente. Ignoramos detalhes do nosso entorno, as emoções que nos visitam e até mesmo a presença dos entes mais queridos: filhos, esposa, parentes e amigos. Por isso é tão importante desacelerar!

Por Fernando Rodrigues - Redação Portal G37

Fernando Rodrigues é diretor do Portal G37 de Notícias, sediado em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sua trajetória está ligada à imprensa regional e à história do jornal Gazeta do Oeste, veículo do qual assumiu a direção após a morte de seu pai, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, em 2004. Em 2018, acompanhou a transformação definitiva do jornal para o ambiente digital, processo que consolidou o Portal G37 como continuidade dessa trajetória no jornalismo local e regional.
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