Mundo barulhento
Ômar Souki
Já há algum tempo, Rejane, minha esposa, me alertava que eu não estava escutando bem e que precisava de um aparelho auditivo. Todas as vezes que eu passava em frente a uma loja desses produtos eu virava o rosto para o outro lado para não me influenciar e acabar acreditando que, de fato, Rejane tinha razão. Mas—“água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”—ela acabou me convencendo a, pelo menos, fazer o teste.
Muito a contra gosto fui lá fazer o tal teste, com a convicção de que passaria com louvor. Qual não foi a minha surpresa quando a fonoaudióloga, Isabella Bonelli, veio com os resultados: minha audição estava bem abaixo do esperado. Relutei em aceitar, mas, minha esposa disse que—enquando eu estava na caixa a prova de som sendo testado—quando Isabella falava “chão”, eu repetia “pão”. “Alegria” virou “alergia”, “tempero” virou “desespero”, “curioso”, “gostoso” e assim por diante.
Teria mesmo que me submeter à triste realidade. Tinha sido reprovado no exame sonoro. Veio, então, a fase seguinte. A de adaptação, usando um aparelho com uma intensidade setenta por cento abaixo do que seria normal para mim. Depois de duas semanas, porém, a intensidade de correção foi aumentada para cem por cento. E eu comecei a escutar tudo!
Entrei em um supermercado, com restaurante anexo, e quase enlouqueci de tanto barulho. Era o som da música ambiente, a conversa das pessoas, a risada de adolescentes, e o ruído da louça no restaurante. Até o barulho do trânsito lá fora me incomodava. Depois que sai, ao entrar no carro, descobri uma série de ruídos que antes escutava, mas que não me perturbavam—do ar condicionado e de um assento mal ajustado—além do impacto sonoro do pisca-pisca.
Antes do aparelho, eu tinha plena consciência de que vivemos imersos em ambientes repletos de poluição sonora. Mas, não tinha noção da seriedade do assunto. No primeiro dia de uso do aparelho a pleno vapor eu tive um choque de realidade—um estranhamento. Quis logo voltar para a casa e me esconder no escritório, respirar fundo, e simplesmente meditar, saborear momentos de paz. Nos dias seguintes fui me adaptando, mas ficou a consciência de que precisamos de mais silêncio.
Felizmente contamos com uma casinha na roça, inserida no Vale da Imaculada Conceição, em Piedade dos Gerais, Minas. Procuramos desfrutá-la pelo menos uma vez por mês, pois ali, além do conforto espiritual das aparições de Nossa Senhora e das orações, há silêncio. Raramente passa um carro naquela rua e as noites são deliciosamente serenas. Depois do choque de realidade que o aparelho auditivo me proporcionou, passei a valorizar mais aquele refúgio no campo.
E, lógico, agora procuro permanecer mais tempo no escritório, escondido da agitação da cidade. Aumentei as sessões de meditação e o tempo que dedico ao meu hobby favorito: escrever. Reconheci que aquele aparelhinho que tanto me amedrontava, acabou por aumentar a minha consciência da necessidade que temos do tão precioso silêncio.








