Coragem para recomeçar

Ômar Souki
Meus avós maternos, Rachid e Fádua Souki, no início do século passado, largaram tudo no Líbano e vieram para o Brasil. Em 1939, meu avô inaugurou o Cine Alhambra em Divinópolis, Minas Gerais. Foi bem-sucedido nos negócios e retornou para o Líbano em 1949 onde passou o resto de seus dias. A saída de sua terra natal—ocasionada pela busca de melhores condições de vida—foi um ato de coragem dos meus avós. Hoje, ao ver a destruição de milhares de casas no Rio Grande do Sul causada pelas chuvas torrenciais, eu penso em duas coisas. Primeiro: no desapego que as vítimas das enchentes devem cultivar, pois perderam tudo. Segundo: na coragem para recomeçar do zero.
Desapego e coragem são qualidades que devem andar juntas. Quando perdemos algo—ente querido, emprego, relacionamento, carro, casa, enfim, algo de grande valor—o choque inicial é profundamente debilitante. Ficamos sem coragem de seguir em frente. Escutei o relato de um pai que, poucos meses depois de perder a esposa, também perdeu seus dois filhos—um de sete e outro de nove anos—em um acidente de carro. Ele passou um ano inteiro sem sair de casa, sem forças para enfrentar a vida. Só conseguiu vencer o trauma depois que teve uma experiência mística na qual escutava seus dois filhos lhe mandando sair daquela letargia e partir para a ação.
O cultivo da espiritualidade é fundamental para desenvolvermos o desapego e cultivarmos a coragem. Nas Sagradas Escrituras temos referências a essas duas virtudes. “Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4, 12-13). “O Senhor é aquele que vai adiante de você; ele estará com você, não lhe deixará, nem lhe desamparará; não tema nem se espante” (Deuteronômio 31, 8). “Não fui eu quem lhe mandou? Esforce-se e tenha bom ânimo, porque o Senhor, o seu Deus, está com você, por onde quer que ande” (Josué 1, 9).
Cultivar o relacionamento com Deus—por meio de orações, meditações, jejuns, missas e caridade—aumenta nossa autoconfiança que, por sua vez, tem um impacto favorável em nossa capacidade de nos desapegarmos de coisas e de pessoas. Além disso, um aumento de nossa espiritualidade nos enche de coragem para enfrentar novos desafios. Fortalecemos nossa autoestima e ampliamos nossa capacidade de superar adversidades, pois sabemos que jamais seremos abandonados pelo nosso Pai Celestial, Criador do Céu e da Terra.
Por mais desafiadoras que sejam as circunstâncias, temos exemplos de pessoas, como meus avós, que nos mostram que, sim, é possível nos desapegarmos de bens e de pessoas, e partirmos para a construção de uma nova vida, seja em uma terra distante, ou mesmo dentro de nosso próprio país.








