O necessário, o possível e o impossível
Ômar Souki
“Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível”, nos aconselha São Francisco. Diante dos desafios a nossa tendência é manter o foco no impossível, na cura milagrosa, no socorro imediato, no consolo em momentos de desespero. E nos esquecemos das pequenas ações necessárias e possíveis.
Tomei conhecimento da história de Mary Rexroat, uma menina de 12 anos, que—contra todas as probabilidades—conseguiu salvar seus sete irmãos menores, durante o rigoroso inverno de 1886 no Kansas, Estados Unidos. Durante uma violenta tempestade de neve, seus pais saíram da sede da fazenda para verificar o gado e prometeram voltar antes do anoitecer, mas jamais retornaram. No outro dia, Mary os encontrou congelados perto do celeiro.
Mary ficou só, com sete crianças, sendo que a menor tinha dois anos e a mais velha dez. Não havia vizinhos por perto. Era janeiro e o inverno estava apenas começando. Ainda havia alimentos na fazenda, os quais racionou meticulosamente. Mantinha a casa constantemente aquecida. Quando a comida acabou, percorreu cinco quilômetros até a fazenda mais próxima, e trocou o anel de casamento da mãe por farinha e manteiga. Caçou pequenos animais com a espingarda do pai e instalou armadilhas para pegar coelhos. Perfurou o gelo do lago e pescou. Assim se passavam os dias numa batalha contra o frio, a fome e o desespero. Mas ela não deixava que seus irmãozinhos vissem o seu medo. À noite contava histórias sobre o que fariam quando chegasse a primavera, as árvores que plantariam e como seria a vida quando o inverno acabasse.
Quando a primavera chegou, os vizinhos—curiosos para saber o que havia acontecido com aquelas crianças—foram até lá e ficaram espantados quando as encontraram vivas. Como poderia uma menina de 12 anos ter conseguido manter sete crianças vivas durante um dos invernos mais rigorosos do Kansas? A resposta de Mary foi simples: “Elas precisavam de mim. Então fiz o que tinha de ser feito”.
Sem treino, sem recursos, tinha apenas sete pequenos que necessitavam dela. Isso foi o suficiente para que se desdobrasse para mantê-los vivos. Foram o calor da lareira sempre acessa, a comida racionada, os animais e peixes que cozinhava e as histórias contadas à noite sobre a chegada da primavera que mantiveram a família viva. Mas, mais importante ainda, foi a decisão de Mary de fazer o necessário e o possível, enquanto esperava que o impossível acontecesse, isto é, que o grupo permanecesse vivo até o fim do inverno.
Essa situação de heroísmo comprova a verdade por trás do conselho de São Francisco. É improvável que o nosso cotidiano nos coloque frente a um desafio tão extremo quanto o que Mary enfrentou. Mas, eu já me vi frente a situações que quase me levaram a desistir de continuar lutando. Naquelas ocasiões—em vez de me desesperar—eu coloquei tudo nas mãos de Deus e continuei atuando no que era necessário e possível, até que o impossível fosse realizado por ele.








