Brasil

Populismo não gera produtividade

O Brasil figura entre os países com menor nível de produtividade quando comparado às principais economias emergentes e às nações desenvolvidas. Esse cenário tem alimentado um debate recorrente sobre como o País poderá impulsionar seu crescimento econômico de forma sustentável. Em áreas estratégicas, como tecnologia e inteligência artificial, o Brasil ainda se encontra distante da evolução observada em mercados dinâmicos e blocos industrializados. Estudos indicam que, nas próximas duas décadas, cerca de 60% da atual força de trabalho poderá ser substituída por sistemas automatizados e tecnologias inteligentes. Diante desse processo de transformação acelerada, o papel da educação torna-se ainda mais central para o desenvolvimento econômico e social.

Em recente palestra realizada no Conselho de Assuntos Estratégicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o embaixador Rubens Barbosa destacou um ponto que chama atenção. O conselho é presidido pelo ex-presidente da República Michel Temer, e a análise apresentada reforçou a percepção de que, embora o Brasil seja uma potência agrícola e tenha destaque global no agronegócio, o País ainda apresenta desempenho aquém do esperado no desenvolvimento industrial e no avanço tecnológico, especialmente no campo da inteligência artificial.

Outro tema que tem despertado debates envolve a discussão sobre a jornada de trabalho. O apoio do governo à manutenção da jornada 6×1 como modelo único é considerado equivocado por diversos analistas econômicos e representantes do setor produtivo. Em muitos segmentos da economia brasileira, como serviços e advocacia, já predomina a escala 5×2. Em outras áreas, entretanto, como o setor de restaurantes e atividades ligadas ao entretenimento e ao turismo, a maior concentração de trabalho ocorre justamente nos fins de semana, o que torna a manutenção do modelo 6×1 mais adequada à dinâmica dessas atividades.

A insistência em tratar a jornada 6×1 como regra geral ignora que muitos setores já conquistaram modelos alternativos por meio de negociações coletivas. Essas negociações consideram as particularidades de cada atividade econômica, algo difícil de contemplar em uma imposição nacional uniforme que desconsidere as diferenças entre indústria, comércio e serviços.

Nesse contexto, defende-se que o Congresso Nacional não ceda a propostas consideradas populistas nesse campo. Para especialistas, cabe a cada setor definir a jornada mais adequada às suas necessidades operacionais e produtivas. A imposição de um modelo único, além de desconsiderar a diversidade da economia brasileira, pode produzir efeitos negativos sobre a competitividade do País.

Economistas e federações empresariais apontam que mudanças estruturais na jornada de trabalho, quando realizadas sem estudos aprofundados, podem impactar custos e produtividade. Projeções citadas por entidades como a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) indicam que determinadas alterações podem gerar impacto inflacionário estimado em até 6,2%, elevando o chamado “Custo Brasil” e afetando a competitividade nacional em um ambiente econômico global cada vez mais disputado.

Outro ponto central do debate está na educação. A ausência de projetos consistentes voltados para a formação de capital humano e para o desenvolvimento tecnológico limita a capacidade de o Brasil acompanhar o ritmo das transformações globais. Em um cenário internacional marcado por inovação acelerada, o ensino torna-se a principal ferramenta para que o País consiga reduzir defasagens históricas.

Nesse sentido, políticas públicas de caráter populista podem produzir ganhos políticos imediatos, especialmente em períodos eleitorais, mas nem sempre se traduzem em avanços estruturais para a economia e para a sociedade. O êxito nas urnas não garante, necessariamente, prosperidade econômica ou desenvolvimento sustentável.

Para alguns analistas, o Brasil ainda carece de um projeto nacional de longo prazo que articule crescimento econômico, inovação tecnológica e fortalecimento institucional. Comparações internacionais são frequentemente utilizadas para ilustrar essa lacuna. Países como China e Índia têm adotado estratégias claras para impulsionar sua competitividade global, enquanto nações europeias avançaram a partir de agendas estruturadas de desenvolvimento.

Na ausência de um planejamento estratégico consistente, o debate público tende a se concentrar em disputas ideológicas e narrativas políticas. Nesse ambiente, propostas estruturais para o crescimento econômico acabam perdendo espaço para discussões de curto prazo, muitas vezes orientadas por interesses eleitorais.

Especialistas costumam comparar a economia a um tabuleiro de xadrez, em que cada movimento precisa ser cuidadosamente planejado e calculado. Sem visão estratégica, no entanto, decisões econômicas podem se assemelhar mais a uma mesa de pôquer, na qual o blefe tenta ocultar a ausência de planejamento.

A substituição de políticas de longo prazo por propostas imediatistas também levanta questionamentos sobre o papel do Poder Executivo. Quando a gestão pública passa a priorizar agendas de caráter eleitoral em detrimento de reformas estruturais, corre-se o risco de enfraquecer projetos capazes de ampliar a competitividade do País no cenário internacional.

Enquanto diversas economias avançam no desenvolvimento tecnológico e na transformação digital, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para converter suas vantagens naturais em crescimento econômico consistente. O País possui vastos recursos hídricos, grande capacidade agrícola e um território altamente produtivo.

O desafio permanece em transformar esse potencial em riqueza real e desenvolvimento sustentável para a população, por meio de políticas públicas voltadas à inovação, à educação e ao fortalecimento da produtividade.

Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo e UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. É professor honorário das universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs do Paraná e do Rio Grande do Sul, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio-SP e ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

Por Fernando Rodrigues - Redação Portal G37

Fernando Rodrigues é diretor do Portal G37 de Notícias, sediado em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sua trajetória está ligada à imprensa regional e à história do jornal Gazeta do Oeste, veículo do qual assumiu a direção após a morte de seu pai, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, em 2004. Em 2018, acompanhou a transformação definitiva do jornal para o ambiente digital, processo que consolidou o Portal G37 como continuidade dessa trajetória no jornalismo local e regional.
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