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Dona Lourdes: 92 anos entre fios, histórias e uma vida bem tecida em Carmo do Cajuru

Fiar, tecer, bem mais que um fazer artesanal, é um processo de experiência. É tomar o fio pelas mãos e fazer da linha arte. Um trabalho lento, feito de paciência e dedicação, como a própria vida. Dessa metáfora, aos 92 anos, dona Maria de Lourdes Camargos Rabelo conhece bem.

Lúcida e bem-humorada, dona Lourdes, como é carinhosamente conhecida, segue tecendo. Desafia o tempo e mantém vivas, entre fios e tramas, histórias que a memória e o coração guardam com imenso carinho.

Se o tear, que até hoje domina com maestria, lhe proporciona a criação de tantas peças, a vida também lhe presenteou com uma história construída ao lado do senhor José Rabelo Vieira, hoje falecido. Juntos, deram origem a uma família numerosa: 13 filhos, 34 netos, 16 bisnetos e uma tataraneta.

Nascida na comunidade rural de Olarias, em Carmo do Cajuru, dona Lourdes já soma mais de seis décadas entre fios, linhas e teares. São mais de 60 anos transformando matéria-prima em peças, mas também preservando uma tradição que atravessa gerações.

Uma pessoa idosa segurando fio enquanto trabalha com lã em uma roda de fiar, com um balde de lã ao lado.

Ela conta que teve uma infância simples, marcada pela convivência em comunidade e pelas brincadeiras de antigamente. “Não tinha televisão, não tinha telefone. Nós íamos na reza, nós brincávamos de cirandinha, passar anel. Tinha dia de o galo cantar e nós na estrada”, recorda.

O casamento com o senhor José veio cedo. Os desafios, naquele tempo, eram muitos, mas, para ela e o esposo, nunca faltou coragem para enfrentá-los.

“Eu menina, né? Eu casei, o Zé era um moleque também, mas continuou a mesma coisa. Enquanto nós deu conta de carregar quatro meninos, nós íamos. Era dificultoso, mas era gostoso. Agora hoje não tem nada difícil, tudo no controle, as máquinas”, comenta.

As primeiras experiências de trabalho de dona Lourdes começaram ainda cedo, em meio às atividades da vida rural. Entre as tarefas estavam fazer fumo, produzir polvilho e farinha, descascar mandioca, ajudar a colocar a cana no engenho e participar da produção de cachaça. Uma rotina intensa, que começava às quatro horas da manhã e se estendia até as onze da noite. “Eu trabalhava das quatro horas da manhã até onze horas da noite”, recorda.

Mais de nove décadas de vida dão a dona Lourdes uma perspectiva privilegiada sobre as mudanças do tempo e, sobretudo, sobre o valor das coisas e das pessoas. Em suas lembranças, ela resgata uma época em que a solidariedade fazia parte da rotina e a comunidade encontrava maneiras de ajudar uns aos outros.

“O pessoal, antigamente, ajudava muito uns aos outros. Era uma comunidade. Um tinha uma coisa que o outro, às vezes, não tinha. Aí trocava. Não tinha muito dinheiro. Dinheiro era mais dessas coisas. Quando faltava uma coisa pra comer, o que é que fazia? Trocava.”, conta.

Foi em meio às dificuldades que o trabalho com os fios ganhou espaço em sua vida. Na comunidade de Olarias, não havia professor. As crianças que desejavam estudar precisavam se deslocar para outras localidades.”Antigamente não tinha professor em Olarias. O menino, para estudar, tinha que ir para o Estiva ou para o Ribeiro. O que as mulheres faziam para ganhar dinheiro? Era fiar. Então, tinha que fiar muito para ganhar dez reais. E com esses dez reais, a gente fazia tanta coisa”, relembra.

Se a vida era dura, pelas suas mãos o fio ganhava forma e o tempo ganhava sentido. Cada peça produzida carregava um pouco de sua própria história, de sua dedicação e de um conhecimento construído ao longo de décadas. Talvez esteja aí a essência do fiar e do tear para dona Lourdes: continuar tecendo a própria história e, ao mesmo tempo, preservar uma tradição que serve de exemplo para sua família e para todos que têm a oportunidade de conhecê-la.

No seu cantinho, à sua maneira, ela segue colecionando e contando histórias. Tecendo a vida todos os dias, colorida, firme e bem fiada. Uma peça bonita de se viver. Inspiradora.

“Que até hoje eu não aguento ficar um minuto parada. Eu tenho que costurar, tenho que bordar, tenho que tecer, tenho que fazer”, encerra dona Lourdes, entre risos e fios.

Por Fernando Rodrigues - Redação Portal G37

Fernando Rodrigues é diretor do Portal G37 de Notícias, sediado em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sua trajetória está ligada à imprensa regional e à história do jornal Gazeta do Oeste, veículo do qual assumiu a direção após a morte de seu pai, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, em 2004. Em 2018, acompanhou a transformação definitiva do jornal para o ambiente digital, processo que consolidou o Portal G37 como continuidade dessa trajetória no jornalismo local e regional.

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