Brasil

Geração Z: entre o desencanto e a busca por sentido

Desemprego, afastamento da política, frustração, desilusão e descrédito nas instituições são marcas que atravessam a juventude em diversos continentes. A geração Z, nascida entre 1997 e o início de 2010, vem impulsionando mudanças profundas em múltiplas dimensões da sociedade. É a primeira a viver inteiramente na era digital — hiperconectada, globalizada e, paradoxalmente, profundamente insegura quanto ao futuro.

Enquanto seus pais acreditavam na ascensão social e na estabilidade profissional, os jovens de hoje se deparam com um horizonte de incertezas. Estudam mais, ganham menos e enfrentam um mercado corroído pela automação e pela informalidade. Rejeitam burocracias e hierarquias verticais rígidas, preferindo ambientes de trabalho abertos e transparentes, onde possam expressar opiniões e serem reconhecidos como indivíduos integrais. Demonstram coragem e ousadia em suas escolhas, sem se limitarem a modelos tradicionais. São menos consumistas do que as gerações anteriores, valorizando marcas alinhadas a seus princípios éticos e ambientais. E mostram-se mais vulneráveis e abertos sobre saúde mental, cobrando das empresas e da sociedade uma postura mais humana e preventiva.

A economia global, que prometia integração e prosperidade, trouxe também precariedade e desamparo. Dessa contradição nasce o desencanto estrutural: a sensação de caminhar sem chão. É um fenômeno planetário. No Quênia, multidões de jovens tomam as ruas de Nairóbi contra o aumento de impostos e a corrupção. No Marrocos, estudantes denunciam o contraste entre os investimentos bilionários para a Copa do Mundo e o abandono da saúde e da educação. Em Madagascar, protestos contra apagões e desemprego terminam em confrontos violentos. No Nepal, jovens reagem à censura digital e à falta de oportunidades. No Togo, enfrentam reformas constitucionais que perpetuam elites no poder.

Na Europa, a inquietação também cresce. Na Sérvia, estudantes transformaram o desabamento de uma estação de trem em símbolo de resistência contra o autoritarismo e a corrupção. Na França, o movimento “Bloquons tout” — “Bloqueemos tudo” — expressa a exaustão de uma geração diante da austeridade econômica e da perda de horizontes. Mesmo com alto nível de instrução e conexão global, a juventude europeia já não acredita que a política institucional seja o caminho eficaz para mudar o mundo.

Na América Latina, o cenário é semelhante. No Peru, jovens desafiaram o estado de emergência e levaram à destituição da presidente Dina Boluarte, em um gesto de repúdio à crise de representatividade. No Chile, as manifestações estudantis que marcaram a última década seguem vivas, agora convertidas em movimentos por um novo pacto social. E mesmo nos Estados Unidos, onde o voto jovem foi decisivo em eleições recentes, cresce o descontentamento com o bipartidarismo e a lentidão das transformações.

Sofia Ong’ele, diretora de estratégia da organização norte-americana Gen Z for Change, resume o fenômeno: “nunca houve tantos movimentos sem liderança acontecendo ao mesmo tempo. Isso é novo, e estamos aprendendo em tempo real o que vem depois”. A fala, publicada pela Folha de S.Paulo, traduz o espírito difuso e descentralizado de uma geração que contesta sem se enquadrar em estruturas tradicionais de poder.

A política, para esses jovens, perdeu o poder de sedução. Cresceram assistindo a escândalos, promessas quebradas e discursos que já não dizem nada. O ceticismo tornou-se instinto de sobrevivência; a descrença, forma de autodefesa. Ainda assim, não são apáticos: protestam, mas de outro modo. Sua rebeldia é digital. O protesto se faz por hashtags, boicotes, ironias e vídeos curtos. É uma política de causas, não de partidos; de valores, não de ideologias. Lutam por meio ambiente, diversidade, equidade e ética digital.

Nessa lógica, a emoção substitui o discurso racional. A aprovação e a rejeição nas redes se transformam em novos mecanismos de poder simbólico, capazes de impulsionar ou destruir reputações em segundos. Trata-se de uma nova forma de ativismo moral, em que o julgamento coletivo se sobrepõe à mediação institucional. As redes sociais se tornaram arenas de cidadania instantânea — e, ao mesmo tempo, de exaustão emocional.

O paradoxo é evidente: essa geração, moldada pela tecnologia, começa a rebelar-se contra ela. Desativa notificações, denuncia manipulações algorítmicas, abandona plataformas. É um protesto contra o próprio sistema que os formou — um grito por autonomia e silêncio em meio ao ruído incessante. O gesto traduz o desejo por sentido num mundo saturado de estímulos e aparências.

Contudo, o desencanto político pode ter um lado virtuoso. Ao rejeitar as velhas formas de poder, a geração Z abre caminho para novas experiências de cidadania. Brotam coletivos locais, startups sociais e comunidades digitais que testam modos de convivência mais éticos e colaborativos. O engajamento migra do palanque para o cotidiano, da ideologia para a prática.

O desafio das democracias é reconectar-se a esses jovens. Governos, empresas e instituições precisam falar a língua da transparência, da verdade e da coerência. Caso contrário, continuarão perdendo o que mais importa: a confiança. A geração Z não exige perfeição, mas autenticidade — e quer participar de decisões que definem o futuro.

Trata-se de uma geração que busca justiça, propósito e coerência. Por trás das telas, pulsa a energia de quem não quer apenas consumir o mundo, mas reinventá-lo. O futuro político e social dependerá da capacidade de transformar esse descontentamento em força criadora — e de ouvir, com humildade, o que o silêncio dos jovens anda dizendo nas ruas de Katmandu, Casablanca, Lima, Santiago e Nova York, onde a futura primeira-dama, Rama Duwaji, de 28 anos, esposa do recém-eleito prefeito Zohran Mamdani, representa o rosto dessa nova era.

A geração Z é o paradigma de um novo tempo. Está redefinindo as normas sociais, os valores e o próprio conceito de trabalho, trazendo à tona a urgência de um novo contrato ético entre indivíduos, instituições e o planeta.


Texto de Gaudêncio Torquato, escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.

Por Fernando Rodrigues - Redação Portal G37

Fernando Rodrigues é diretor do Portal G37 de Notícias, sediado em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sua trajetória está ligada à imprensa regional e à história do jornal Gazeta do Oeste, veículo do qual assumiu a direção após a morte de seu pai, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, em 2004. Em 2018, acompanhou a transformação definitiva do jornal para o ambiente digital, processo que consolidou o Portal G37 como continuidade dessa trajetória no jornalismo local e regional.
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