Minas Gerais

Minas Gerais tem menor remuneração da Polícia Civil e déficit de 45% no quadro atual

Minas Gerais aparece na última posição do país em remuneração bruta média dos policiais civis e enfrenta uma defasagem próxima de 45% no efetivo. Os números constam em levantamento nacional sobre a estrutura das forças de segurança pública e colocam no mesmo cenário dois indicadores relacionados ao funcionamento da Polícia Civil mineira: o rendimento médio dos servidores e a quantidade de profissionais disponíveis para exercer as atividades da instituição.

A remuneração bruta média dos policiais civis de Minas Gerais é de R$ 12.195,03, enquanto a média nacional alcança R$ 15.512,52. Na outra extremidade da comparação está o Amazonas, com média de R$ 26.824,02, valor superior ao dobro do registrado entre os servidores mineiros.

O indicador não deve ser confundido com o salário inicial previsto nos editais de concursos públicos. A média considera as remunerações registradas entre profissionais das carreiras analisadas pelo levantamento, o que significa que existem diferenças de vencimentos conforme cargo, classe, progressão funcional, tempo de serviço e outras parcelas previstas pelas legislações estaduais.

A comparação entre as unidades da Federação também mostra diferenças expressivas na política remuneratória aplicada às Polícias Civis. Como cada estado possui estrutura própria de carreiras e regras específicas para pagamentos, profissionais que desempenham funções semelhantes podem receber valores diferentes conforme a unidade da Federação em que trabalham.

No caso mineiro, o valor médio de R$ 12,1 mil coloca a corporação abaixo inclusive de estados que também aparecem na parte inferior da classificação nacional. A diferença entre Minas e a média brasileira é superior a R$ 3,3 mil mensais quando considerados os valores brutos apresentados pelo levantamento.

O resultado amplia uma discussão que já vinha ocorrendo em Minas Gerais sobre remuneração, recomposição inflacionária, estrutura das carreiras e condições de trabalho. Representantes de categorias da segurança pública têm levado essas questões ao Governo do Estado e à Assembleia Legislativa de Minas Gerais em diferentes audiências e reuniões realizadas nos últimos anos.

Além da remuneração, o efetivo disponível constitui outro ponto apresentado pelo levantamento. No cenário nacional, as Polícias Civis possuem cerca de 97 mil investigadores, escrivães e delegados, enquanto a previsão das legislações estaduais fica próxima de 175 mil profissionais. A diferença corresponde a aproximadamente 45% do quantitativo previsto.

Em Minas Gerais, os números apresentados no estudo também apontam uma diferença próxima desse percentual. A Polícia Civil mineira aparece com quase 9 mil profissionais nas carreiras consideradas na comparação, diante de um quadro projetado em aproximadamente 16 mil para esse recorte.

Dados institucionais mais amplos da própria Polícia Civil ajudam a dimensionar a situação. Relatório de gestão encaminhado à Assembleia Legislativa informa que a Lei Orgânica da instituição estabelece um teto de 17.517 cargos, somando carreiras policiais e administrativas. Até maio de 2026, havia 11.089 servidores ativos, número correspondente a 63,3% da capacidade legal de lotação.

Essa comparação significa que, considerando todo o quadro previsto no relatório institucional, mais de seis mil postos não estavam ocupados naquele momento. O percentual varia conforme as carreiras incluídas no cálculo, razão pela qual levantamentos que consideram apenas investigadores, escrivães e delegados podem apresentar totais diferentes daqueles que incluem peritos, médicos-legistas e servidores administrativos.

A situação pode ser observada também quando as carreiras são analisadas separadamente. Na de delegado de polícia, por exemplo, documento apresentado na Assembleia Legislativa registra que a legislação mineira prevê 1.987 cargos, enquanto havia 1.059 delegados em atividade no levantamento utilizado pelo Legislativo. A diferença supera 800 cargos.

O déficit levou comissões da Assembleia a cobrarem informações e providências relacionadas a nomeações. Em maio, um requerimento solicitou ao Governo de Minas a nomeação de candidatos aprovados em concurso para delegado e mencionou expressamente a defasagem estrutural existente na carreira.

A questão não se concentra apenas na capital e na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Requerimentos apresentados na Assembleia também tratam da distribuição dos policiais civis pelo interior do estado e questionam situações em que um número reduzido de servidores precisa atender diferentes municípios ou acumular procedimentos investigativos.

Minas Gerais possui 853 municípios, e a Polícia Civil exerce atividades de polícia judiciária em todas as regiões. Entre suas atribuições estão a investigação de crimes, instauração e condução de inquéritos policiais, cumprimento de mandados e produção de procedimentos encaminhados posteriormente ao Ministério Público e ao Poder Judiciário.

No Centro-Oeste de Minas, a falta de servidores também já motivou discussões específicas. A Comissão de Segurança Pública da Assembleia realizou, por exemplo, audiência sobre a situação da delegacia de Oliveira e a distribuição do efetivo disponível para atendimento à população.

A comparação salarial nacional mostra como Minas se posiciona diante das demais unidades da Federação. A tabela abaixo apresenta a remuneração bruta média das Polícias Civis no levantamento, em ordem decrescente, com a média nacional incluída como referência:

PosiçãoUnidade da FederaçãoRemuneração bruta média
1ºAmazonasR$ 26.824,02
2ºTocantinsR$ 21.229,81
3ºMato GrossoR$ 20.476,79
4ºParáR$ 20.268,52
5ºRoraimaR$ 20.121,93
6ºDistrito FederalR$ 19.769,83
7ºCearáR$ 18.293,75
8ºEspírito SantoR$ 17.911,56
9ºAlagoasR$ 17.760,01
10ºSanta CatarinaR$ 16.709,57
11ºGoiásR$ 16.527,78
12ºSergipeR$ 16.309,53
13ºAmapáR$ 16.118,45
14ºRio Grande do SulR$ 16.052,70
15ºRio de JaneiroR$ 15.949,24
16ºMaranhãoR$ 15.935,76
—Média nacionalR$ 15.512,52
17ºMato Grosso do SulR$ 14.567,68
18ºPiauíR$ 14.534,21
19ºPernambucoR$ 14.244,01
20ºRondôniaR$ 13.987,89
21ºSão PauloR$ 13.568,27
22ºParanáR$ 13.517,56
23ºRio Grande do NorteR$ 13.328,43
24ºBahiaR$ 13.214,73
25ºAcreR$ 13.081,94
26ºParaíbaR$ 12.894,22
27ºMinas GeraisR$ 12.195,03

A distância entre as duas pontas do ranking é de aproximadamente R$ 14,6 mil. Enquanto o Amazonas supera R$ 26,8 mil de remuneração bruta média, Minas registra pouco mais de R$ 12,1 mil. Os valores de Minas, da média nacional e do Amazonas são os mesmos destacados na divulgação do estudo feita nesta quinta-feira (6).

A posição de Minas precisa ser interpretada de acordo com a metodologia do levantamento. O indicador representa a remuneração bruta média e não significa que todos os servidores da Polícia Civil mineira recebam exatamente R$ 12.195,03. A remuneração individual varia conforme a carreira e a posição ocupada por cada profissional.

O mesmo cuidado vale para comparações com salários de concursos públicos. O vencimento anunciado em um edital normalmente corresponde à remuneração prevista para o ingresso na carreira, enquanto a média usada no estudo reúne profissionais em diferentes etapas funcionais.

A discussão remuneratória ocorre simultaneamente às medidas adotadas para recompor parte do quadro de pessoal. Segundo relatório de gestão da Polícia Civil, 215 novos profissionais das carreiras de investigador, escrivão, perito criminal e médico-legista estavam em processo de incorporação, com formação prevista para junho de 2026.

O mesmo documento informa a previsão de ingresso de outros 158 profissionais, sendo 54 delegados e 104 técnicos-assistentes na área de auxiliar de perícia. Ainda assim, o relatório reconhece que o quadro de pessoal permanece abaixo da capacidade de lotação estabelecida legalmente.

Concursos públicos e nomeações, portanto, são uma das formas de reduzir a diferença entre o quadro legal e o número de servidores efetivamente em atividade. Entretanto, o resultado depende também da quantidade de profissionais que deixam a corporação por aposentadoria, exoneração e outras formas de vacância.

A Polícia Civil já informou à Assembleia Legislativa, em respostas anteriores, que utiliza critérios como criminalidade, produtividade e condições estruturais para determinar a distribuição de servidores pelas unidades. A instituição também tem apontado a regionalização como mecanismo para permitir que equipes lotadas em determinadas cidades atendam municípios da mesma área quando necessário.

Esse modelo aparece especialmente em municípios menores, onde nem sempre existe uma estrutura completa com todas as carreiras. Em algumas localidades, procedimentos são coordenados por delegacias regionais responsáveis por mais de uma cidade, o que torna a quantidade e a distribuição dos servidores fatores relevantes para o funcionamento da investigação criminal.

Documentos da Assembleia mostram que a preocupação com a defasagem não começou em 2026. Requerimento apresentado anteriormente já mencionava déficit geral de 44,5% na Polícia Civil mineira e relacionava a redução do efetivo à sobrecarga de delegados, escrivães, investigadores, médicos-legistas e peritos criminais.

Em dados mais recentes, uma análise baseada em registros do Portal da Transparência apontou falta de 6.455 servidores somente entre investigadores e escrivães. A estimativa indicava 5.442 vagas não preenchidas de investigador e 1.013 de escrivão, na comparação com os quantitativos previstos legalmente para essas duas carreiras.

O levantamento citado nesse cálculo indicava 5.859 investigadores em atividade diante de 11.301 cargos previstos, além de 1.877 escrivães para 2.890 cargos estabelecidos. Como os dados se referem a um recorte específico das carreiras, eles não devem ser somados diretamente a outros levantamentos sem considerar a metodologia e a data de referência.

A diferença entre o efetivo previsto e o existente tem levado a pedidos de reforço em delegacias de diferentes regiões. Em Sete Lagoas, Frutal, Nepomuceno, Oliveira e outros municípios, requerimentos e audiências recentes trataram da distribuição de investigadores, escrivães e delegados e da possibilidade de destinação de novos servidores.

A Polícia Civil, por sua vez, informa que a recomposição de seu quadro está entre as prioridades institucionais e destaca concursos públicos em andamento ou concluídos. A corporação também afirma que a distribuição de novos profissionais deve observar necessidades operacionais e critérios técnicos de cada região.

O debate sobre efetivo não envolve apenas quantidade de servidores, mas também a capacidade de manter delegacias, plantões e unidades especializadas funcionando em todas as regiões. Como investigações podem exigir diligências, oitivas, cumprimento de mandados e análise de diferentes tipos de evidências, a composição das equipes interfere na divisão dos procedimentos entre os policiais disponíveis.

Outro elemento da discussão é a evolução funcional dos servidores que permanecem na ativa. O relatório da Polícia Civil informa que, entre janeiro de 2025 e maio de 2026, foram concedidas 812 promoções, das quais 628 para carreiras policiais e 184 para a estrutura administrativa. No mesmo período, 6.187 servidores receberam progressões na carreira.

A corporação também informou que cinco editais estavam em andamento com 516 vagas destinadas a promoções ao longo de 2026. As medidas tratam da movimentação interna nas carreiras e não representam, necessariamente, entrada de novos servidores no quadro da instituição.

Enquanto concursos, nomeações e promoções avançam, os dados nacionais mantêm Minas na última posição da comparação de remuneração bruta média apresentada para as Polícias Civis. A diferença para a média brasileira supera R$ 3 mil, enquanto a distância para o Amazonas passa de R$ 14 mil.

No efetivo, as diferentes fontes convergem ao indicar uma defasagem relevante entre o número de cargos previstos e o de profissionais em atividade. A dimensão exata varia conforme as carreiras consideradas, mas documentos oficiais e levantamentos nacionais mostram percentuais próximos de 40% quando comparados determinados recortes do quadro legal e dos servidores ativos.

As informações colocam remuneração, concursos públicos, distribuição regional e recomposição do quadro entre os temas relacionados à estrutura da Polícia Civil de Minas Gerais em 2026. Novas nomeações poderão alterar o número de servidores ativos, enquanto mudanças remuneratórias dependem de decisões administrativas, orçamentárias e legislativas.

Até o momento, o levantamento nacional apresenta Minas Gerais com R$ 12.195,03 de remuneração bruta média, a menor entre as Polícias Civis do país, enquanto dados sobre o efetivo mostram uma instituição operando abaixo do número de cargos estabelecido em sua estrutura legal.

Por Fernando Rodrigues - Redação Portal G37

Fernando Rodrigues é diretor do Portal G37 de Notícias, sediado em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sua trajetória está ligada à imprensa regional e à história do jornal Gazeta do Oeste, veículo do qual assumiu a direção após a morte de seu pai, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, em 2004. Em 2018, acompanhou a transformação definitiva do jornal para o ambiente digital, processo que consolidou o Portal G37 como continuidade dessa trajetória no jornalismo local e regional.
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