Minas Gerais

 “EU NÃO DISCUTO MAIS.”

Eli Antônio da Silva

       Se foi um tempo em que as questões que afugentavam a cabeça dos homens eram tratadas de uma forma mais aprofundada, responsável para não dizer até romântica, tudo transcorria na ânsia de obter soluções seguras, úteis e convincentes, algo que trouxesse de fato respostas sólida, não mutáveis a curto prazo, essas, por sua vez, não significava que eram absolutas, irrefutáveis, mas, no mínimo “aceitáveis” mediante os olhos dos leigos e até dos mais entendidos, o critério podia ser a moralidade, desde que o comportamento não afetasse certos costumes ou não explicitasse a ignorância atropelando a polidez, essa por sua vez, conquistada somente com o zelo em relação aos hábitos inerentes a formação, tanto de caráter, quanto cultural. As enciclopédias eram fonte de conhecimento, os professores eram os difusores destes, seres respeitabilíssimos cuja presença sempre permeava nos mais diferentes acontecimentos históricos e sociais de  qualquer esfera, seja essa politica, cultural e até mesmo religiosa. Infelizmente, essas enciclopédias, de ferramentas imprescindíveis, hoje adornam estantes como simples bibelôs decorativos em casas que ficaram maiores em termo de espaço, porém menores em termo de conhecimento, os Professores já há algum tempo, medidos pelo crivo pragmático, fator estrelado dos novos tempos, ocupam um grau secundário de importância, revelando mais ainda uma obsolescência forçada pelo temor daqueles que um dia deles dependeram.  Sócrates, filósofo Grego que viveu entre 470 a.C. a 399 a.C já dizia que “Só existe um bem, o saber e apenas um mal, a ignorância”.

Essa nova geração transformou o google em guru do conhecimento,  acreditam ingenuamente que o conteúdo acessado é o bastante e que conferir quem o produz é desnecessário. Estou cansado de recolher trabalhos de alguns alunos que deveriam falar de Santo Tomaz de Aquino, Teólogo eu viveu no sec. XIII, falando de São Tomé das Letras, cidade localizada no sul de Minas, a produção de resultados se transformou em método afastando o caráter epistêmico da atividade, tudo se resumiu em um pragmatismo típico dos novos tempos.

Quando eu cursava história há mais de 20 anos atrás tínhamos propósitos que só podiam ser trilhados mediante um caminho único, o preparo, o sofrimento fazia parte e tínhamos consciência disso, não era fácil, além do custo exorbitante das mensalidades acadêmicas, o ritmo de conciliar trabalho x estudos nos exigia tal sacrifício. Apesar da árdua rotina, víamos como necessário todo aquele esforço se quiséssemos, um dia, responder com segurança sobre um determinado assunto sem o risco de estarmos falando besteira. A partir do curso de história, me enveredei em outras áreas do conhecimento a fim de me assegurar de que quando expusesse minha opinião, não corresse o risco de mais atrapalhar do que ajudar. Hoje, por incrível que pareça, me sinto mais perdido do que quando terminei o ensino médio. As vezes me pego em certas discussões nos mais diferentes espaços com pessoas dos mais diferentes perfis, discussões essas de âmbito politico, social, educacional e até religiosas. Percebo subjeções desprovidas de qualquer embasamento se destacando não pela altura dos argumentos, mas pelo volume e tom de voz, hoje, qualquer um expõe suas opiniões descalças de formação em qualquer lugar e isso, por mais rotineiro que vem sendo, muitas vezes chega a ser invasivo, “colonizante”, intromissivo. Acostumamos a usar filtros, bloqueios, AntiSpam, etc, tudo ocorre com tamanha soberba que chega a me assustar, não que me sinta superior,  pelo contrario, me sinto coagido e preocupado, quando relaciono o atual momento do País com as particularidades que me afligem, passo a entender do por que estarmos perdidos neste breu da desilusão em relação ao nosso futuro. Concluí, “Eu não discuto mais!” como dizia Ferreira Gullar, escritor falecido em 2016: “Eu não quero ter razão, eu só quero é ser feliz!”, o conhecimento me ensinou que nem sempre ele (o conhecimento) adentra onde não é chamado, há de se afastar para que a ignorância morra por sí só.

Eli Antônio da Silva é Filósofo por formação,

Professor de História / Filosofia e Artes Visuais,

Pós graduado em Ciências da Religião.

Bacharelando de Direito

Autor de 05 obras entre Romance e biografias,

Membro da Academia Santantoniense de Letras.

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