Encontrar força na imperfeição
Ômar Souki
Céline Santini, autora do livro Kintsugi—a arte japonesa de encontrar força na imperfeição (Planeta, 2019), explica que Kintsugi, método de reparar peças de cerâmica quebradas, pode ser utilizado como uma filosofia “segundo a qual não se deve esconder erros e fracassos”. Pelo contrário, “é preciso encarar, aprender com as adversidades e dar a volta por cima”. A obra é salpicada de sabedoria, nos convidando, literalmente, a fazer dos limões da vida, gostosas limonadas. “Um imprevisto, um movimento em falso, um choque, e vem a queda… Assim como um objeto quebrado, espatifado violentamente no chão, você virou um monte de cacos. Seja qual for a experiência que está vivendo, seja ela física ou psicológica, sua impressão é de que ela é insuperável. De que não se levantará nunca mais. De que nunca mais será a mesma pessoa. E é verdade: de fato, você nunca mais será a mesma pessoa. Melhor assim! Essa experiência é iniciática. Considere o dia de hoje como ponto de partida de um longo processo de reconstrução. Sim, será doloroso. Sim, será difícil. Sim, será longo. Por que negar? Mas isso também vai passar…” (p. 23).
Uma perda, um acidente, uma doença, uma separação… e as coisas mudam repentinamente. Como transformar esses dolorosos açoites em oportunidades não só de aprendizado e fortalecimento, mas também de embelezamento de nossa existência? “Os acontecimentos que você vivencia ou vivenciou, deixaram-no em carne viva: como uma ferida aberta, revelam suas fissuras, suas fragilidades, alcançando recessos desconhecidos de sua alma. Mas você também vai extrair disso uma força insuspeita para se reconstruir… numa versão melhor de si mesmo! Afinal de contas: até aqui, você sobreviveu a 100 porcento de suas piores provações!” (p. 24).
Refletindo sobre as situações desafiantes de nossa vida—depois que as superamos—chegamos a conclusão de que ficamos mais fortalecidos, mais resilientes. Com frequência, essas provações nos forçam a desenvolver novas competências, ou nos empurram para fora de nossa zona de conforto, abrindo portas jamais imaginadas antes. Para enfrentarmos o imprevisto, podemos nos valer da lembrança de como superamos situações calamitosas do passado e anotarmos os efeitos positivos de um evento que tinha sido considerado apenas como doloroso. É preciso juntar os cacos e colá-los com delicadeza e carinho. Algo que antes parecia inútil, pode ser transformado em uma obra de arte.
Assim como existem diferentes técnicas de reparo para objetos quebrados, podemos também nos utilizar de diferentes recursos para ficarmos de pé novamente. Para nossa alma, podemos recorrer a um aprofundamento na espiritualidade através da meditação, oração, leitura dos Evangelhos e celebrações eucarísticas. Para nossa psique podemos recorrer a psicoterapia; e para o corpo, exercícios físicos regulares e caminhada, dependendo de nossas preferências.
E, assim como é preciso paciência para colar um objeto quebrado, temos também de ter paciência conosco mesmos. Como escreveu Shakespeare: “Pobre daqueles que não têm paciência! Que ferida não se cura de outra forma senão gradualmente?”.








