A melhor parte

Ômar Souki
“Chega a atarefada Marta: ‘Você ainda está aqui, Maria? E eu a me cansar de tanto trabalhar!… O tempo vai passando. Os convidados logo virão e ainda há tanta coisa para fazer. As servas estão fazendo o pão. Os servos preparam já as carnes e as estão cozinhando. Eu estou tratando de dispor a louça, as mesas e as bebidas. Mas ainda tenho de ir apanhar as frutas e preparar a água com hortelã e mel…’”. No livro O Evangelho como me foi revelado, Maria Valtorta, mística italiana, tem uma visão completa da bronca que Marta dá em Maria (Vol. 6, p. 128).
“Marta então invoca a ajuda de Jesus: ‘Mestre, olha como eu estou neste calor. Parece justo para você que eu fique trabalhando sozinha? Diga a ela que venha me ajudar’” (p. 129). Mas, segundo Valtorta, Jesus não parece se importar tanto com os comentários de Marta e responde com um sorriso brincalhão, o que faz com que Marta se inquiete mais ainda: “Estou falando sério, Mestre. Olha como ela fica ociosa, enquanto eu estou trabalhando. E ela fica aí olhando…”. Jesus então responde: “Ela não está ociosa, Marta. Não se trata de ócio, mas de amor. […] Marta, Marta! Deverei eu então dizer que esta aqui (e Jesus põe a mão sobre a cabeça de Maria), que veio de tão longe, superou você no amor? Deixa-a em sua paz. Ela esteve tão doente! […] Agora que descobre um mundo novo, deve esquecer-se do passado e conquistar para si o que é eterno, o que não será conquistado apenas com o trabalho, mas também com a adoração. […] Você se preocupa com muitas coisas. Maria se preocupa só com uma, mas é a que basta para o seu espírito e sobretudo para o seu Senhor. Deixa que caiam as coisas inúteis. Imita a sua irmã. Maria escolheu a melhor parte, a que nunca lhe será tirada”.
Essa situação envolvendo Marta, Jesus e Maria (Madalena) é frequentemente mencionada para ilustrar o valor da vida contemplativa. Enquanto Marta representa a pessoa super ocupada, Maria é o exemplo da contemplativa.
Perto da casa, onde as irmãs viviam com o irmão, Lázaro, Valtorta vê um jardim com um pequeno lago, e às suas margens uma cadeira onde Jesus vai assentar-se. Maria foi, então, sentar-se a seus pés. Olhando para água transparente do lago, o Mestre a compara com a pureza das crianças. Depois pega uma vara e raspa o fundo do lago, o que faz com que a água se turve. Então comenta: “Os detritos e a lama vêm à tona. O cristal que ela era se torna amarelento e ninguém mais iria querer beber dela. Mas, se eu retiro a vareta, a água vai voltando pouco a pouco a ficar limpa e bela. A vareta é o pecado. Assim acontece com as almas. O arrependimento, você pode crer, é o que limpa” (p. 128).
Depois da visão, Jesus relata que Madalena—pelo profundo arrependimento e pela perseverança na contemplação—conseguiu nascer de novo. Faz, então, o seguinte apelo: “Ó almas que temem, aprendam a não terem medo de mim, lendo a vida de Maria de Magdala. Ó almas, que amam, aprendam com ela o amor, com um ardor seráfico. Ó almas, que erraram, aprendam com ela a ciência, que prepara vocês para o Céu” (p. 130).








