Os caminhos do PT
No primeiro semestre de 2026, o Partido dos Trabalhadores (PT) realizará um congresso para definir seus rumos e discutir mudanças em seu funcionamento e programa. O encontro marcará o início da campanha à reeleição do presidente Lula. Pelo cenário atual, o PT, após anos tentando se equilibrar no centro do espectro ideológico, deve fazer uma guinada à esquerda, resgatando antigas bandeiras e o discurso histórico do “nós contra eles” e “pobres contra ricos” — como já se percebe na retórica do presidente, que volta a adotar o tom combativo dos tempos de sindicalista.
Lula acredita que, para disputar a reeleição em 2026, precisa reforçar a pauta de esquerda, afastando-se da moderação que o caracterizou em outros momentos e recuperando a identidade original do partido. Em seus dois primeiros mandatos, o petista soube flexibilizar dogmas e adotar medidas pragmáticas, garantindo alianças no Congresso e ajustes econômicos necessários para governar.
Nos últimos anos, o partido sofreu com o desgaste de sua imagem. Escândalos de corrupção e crises econômicas abalaram a confiança de parte da classe média e afastaram jovens que cresceram em meio à polarização política. Internamente, o PT também enfrenta tensões entre correntes: enquanto grupos mais à esquerda defendem o retorno às origens combativas e à mobilização popular, outros setores pregam a moderação, alianças amplas e políticas de consenso como caminho para a estabilidade.
Apesar das divergências, o PT manteve uma estrutura orgânica sólida e capilaridade nacional. Continua sendo o partido com maior presença municipal, bancada expressiva no Congresso e militância fiel. No entanto, essa base vem envelhecendo. O desafio agora é renovar quadros e discursos sem romper com o passado. O que será do PT pós-Lula? Um partido de massas como nos anos 1980? Uma força progressista articulada com as novas pautas sociais? Ou uma legenda pragmática, voltada à governabilidade e manutenção do poder?
O fato é que o PT chega à metade da década de 2020 em posição paradoxal: está no poder, mas cercado por incertezas. Maior partido de esquerda do país, forjado nas lutas sindicais e movimentos sociais, precisa definir seu papel quando o carisma de Lula deixar de ser o eixo da política brasileira. O PT sempre orbitou em torno de seu fundador — é ele quem costura alianças, pacifica tendências e mobiliza filiados. Agora, mais de quatro décadas depois de sua criação, o partido precisa aprender a viver para além de Lula.
O futuro do PT dependerá de sua capacidade de preservar a identidade e modernizar a narrativa. Isso exige manter o compromisso com a justiça social e com a redução das desigualdades, mas também atualizar a linguagem política, dialogar com novas gerações e compreender as pautas ambientais, identitárias e tecnológicas que moldam o século XXI. O eleitor atual já não vota apenas por ideologia, mas por percepções de bem-estar, emprego, segurança e eficiência administrativa.
No campo eleitoral, o PT sabe que a esquerda isolada não vence. Por isso, aposta nas federações com partidos do centro democrático e na atração de votos do Centrão. A vitória de 2022 mostrou a força das coalizões amplas, mas também revelou seus limites: há uma tensão constante entre o pragmatismo necessário para governar e a coerência ideológica esperada pela base. O desafio será conquistar novamente o eleitor mediano, especialmente das classes A, B e parte da C.
Outro ponto crucial é a comunicação política. O PT ainda fala muito com o passado e pouco com o futuro. As redes sociais fragmentaram o espaço público, e a direita tem explorado esse terreno com mais eficiência. O partido precisa reconstruir sua narrativa digital, aproximando-se de influenciadores, jovens criadores de conteúdo e movimentos contemporâneos. A era das telas exige mensagens curtas, visuais e emocionalmente conectadas, sem perder profundidade.
Para 2026, o PT precisará apresentar um projeto de país que vá além da memória de Lula. Caso contrário, corre o risco de se transformar em guardião de um passado glorioso, mas distante. Se conseguir formar novos líderes, renovar sua militância e oferecer soluções para temas como emprego, sustentabilidade, educação digital e segurança pública, poderá manter protagonismo. Caso contrário, pode tornar-se apenas um partido histórico — respeitado, porém periférico em uma sociedade em rápida transformação.
O destino do PT não será definido por seus adversários, mas por sua capacidade de reconectar-se com o Brasil real — o das pequenas cidades conectadas, dos trabalhadores autônomos e das periferias digitais. Lula já sinalizou o caminho ao sugerir que os candidatos petistas “voltem aos portões das fábricas”. A esquerda só continuará desfraldando sua bandeira se conseguir iluminar o novo mundo que surge, sem perder de vista o chão onde nasceu.
Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.








