Em mais um ato político às vésperas das eleições, governo anuncia canetas emagrecedoras pelo SUS, mas distribuição ainda depende de protocolo e estudos

A 17 dias do primeiro turno das eleições gerais de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o Sistema Único de Saúde (SUS) deverá disponibilizar gratuitamente medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, para pacientes com obesidade. O anúncio ocorreu nesta quinta-feira (17/9), durante agenda em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro.
Apesar do anúncio, a oferta nacional das canetas ainda não começou e o Ministério da Saúde não apresentou uma data para que os medicamentos sejam disponibilizados de forma ampla nas unidades do SUS. Segundo a pasta, a futura incorporação dependerá de estudos, critérios médicos e da elaboração de um protocolo clínico que determine quais pacientes poderão receber o tratamento e em quais condições.
Durante a agenda em Minas Gerais, Lula afirmou que as canetas deverão ser destinadas a pessoas com obesidade que tenham indicação médica para o tratamento. O presidente também defendeu que o medicamento não seja utilizado de forma indiscriminada e afirmou que a indicação deverá permanecer sob responsabilidade dos profissionais de saúde.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o governo pretende deixar pronto um protocolo para permitir a disponibilização dos medicamentos no SUS em todo o país. Segundo o ministério, a estratégia deverá considerar segurança, acompanhamento médico e impacto financeiro antes da expansão do tratamento para a rede pública.
Atualmente, o uso da semaglutida no SUS ocorre dentro de um projeto-piloto realizado pelo Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre. A pesquisa começou em junho e prevê o acompanhamento de 250 pacientes com obesidade grave ou associada a outras doenças durante dois anos. O estudo pretende avaliar efetividade, segurança, qualidade de vida e o custo do tratamento para o sistema público.
Entre os participantes estão pacientes que aguardam cirurgia bariátrica. Um dos objetivos é verificar se a redução de peso obtida com a medicação pode melhorar as condições clínicas desses pacientes e, em determinados casos, alterar a necessidade ou as condições para a realização do procedimento cirúrgico. O estudo também avalia pacientes com outras comorbidades associadas à obesidade.
O Ministério da Saúde informou que os primeiros resultados observados no projeto foram considerados positivos. Segundo Alexandre Padilha, o primeiro paciente tratado perdeu seis quilos, reduziu medidas e apresentou mudanças nos hábitos cotidianos. O resultado individual, entretanto, não representa conclusão do estudo, que continuará acompanhando centenas de participantes durante o período previsto pela pesquisa.
A futura incorporação das canetas ao SUS também envolve uma discussão sobre custos. Em 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) recomendou que a semaglutida não fosse incorporada para um grupo específico de pacientes com obesidade graus II e III, sem diabetes, com idade a partir de 45 anos e doença cardiovascular estabelecida.
Naquela análise, diferentes cenários apontaram impactos de bilhões de reais ao longo de cinco anos, dependendo da duração do tratamento e da quantidade de pacientes atendidos. A comissão registrou que uma nova avaliação poderia ocorrer caso surgissem fatos capazes de modificar as condições analisadas anteriormente.
O cenário do mercado mudou desde aquela avaliação. A expiração da patente da semaglutida e a entrada de novos fabricantes ampliaram a quantidade de produtos registrados no Brasil. O Ministério da Saúde passou a considerar a ampliação da concorrência e uma eventual redução dos preços como fatores que podem influenciar uma futura incorporação ao SUS.
O anúncio também entrou no debate eleitoral por ter sido feito pouco mais de duas semanas antes da votação. Adversários políticos do governo passaram a questionar o momento escolhido para divulgar a medida, enquanto o Ministério da Saúde sustenta que a decisão está relacionada a estudos técnicos, avaliação de segurança e definição de critérios para atendimento dos pacientes.
A proximidade entre o anúncio e as eleições é um dado objetivo do calendário: a promessa foi apresentada em 17 de setembro e o primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro. Até o momento, entretanto, não há protocolo nacional concluído, calendário de distribuição, número estimado de beneficiários ou orçamento final anunciado para uma oferta ampla das canetas emagrecedoras pelo SUS.
O Ministério da Saúde afirma que a definição deverá considerar os resultados dos estudos em andamento, a capacidade de produção dos medicamentos no Brasil e o impacto financeiro para a rede pública. A pasta também aposta na entrada de novos fabricantes e na redução dos custos como fatores que poderão tornar a eventual incorporação mais viável.
Assim, embora o governo tenha anunciado que pretende disponibilizar as canetas emagrecedoras pelo SUS, a medida ainda está em fase de avaliação e estruturação. A definição sobre quem terá direito ao tratamento, quando a distribuição começará, quais medicamentos serão utilizados e qual será o custo para os cofres públicos dependerá das próximas decisões técnicas e administrativas do Ministério da Saúde.








