Brasil

Atendimentos por ansiedade entre adolescentes superam índices de adultos e acendem alerta para as famílias

O crescimento dos atendimentos relacionados à ansiedade entre crianças e adolescentes acendeu um alerta para famílias, escolas e profissionais de saúde em todo o Brasil. Levantamentos baseados em registros do Sistema Único de Saúde apontam que, pela primeira vez, os índices entre o público mais jovem ultrapassaram os observados entre adultos, revelando uma mudança preocupante no perfil de quem procura ajuda por sofrimento emocional.

Os números mostram que a situação não pode mais ser tratada como um problema isolado ou passageiro. Entre 2014 e 2024, os atendimentos por ansiedade no SUS cresceram quase 2.500% entre crianças de 10 a 14 anos. Na faixa dos 15 aos 19 anos, o aumento chegou a aproximadamente 3.300%, indicando uma procura muito maior pelos serviços de saúde ao longo de uma década.

O avanço dos registros não significa necessariamente que todos esses jovens tenham um transtorno de ansiedade diagnosticado. Parte do crescimento pode estar relacionada ao aumento da informação, à redução do preconceito contra o acompanhamento psicológico e à maior capacidade de pais, professores e profissionais reconhecerem sinais que antes eram ignorados.

Ainda assim, a dimensão do aumento preocupa. A adolescência é uma fase marcada por mudanças físicas, emocionais e sociais, além da construção da identidade, da busca por autonomia e da necessidade de aceitação. Quando esse período é acompanhado por cobranças intensas, isolamento, conflitos familiares ou falta de apoio, o sofrimento pode ganhar proporções que o jovem não consegue administrar sozinho.

A ansiedade faz parte da vida e pode surgir antes de uma prova, de uma apresentação, de uma entrevista ou de uma decisão importante. Em níveis moderados, ela ajuda o organismo a se preparar para desafios. O problema começa quando a preocupação se torna constante, desproporcional e interfere no sono, nos estudos, nos relacionamentos e nas atividades diárias.

Um adolescente que vive ansioso pode não dizer claramente que está sofrendo. Em muitos casos, o problema aparece por meio de irritação, impaciência, dores frequentes, dificuldade de concentração, medo excessivo, alterações no apetite ou resistência para frequentar a escola.

Também podem surgir crises de choro, sensação de falta de ar, coração acelerado, tremores, suor excessivo, desconforto no estômago e preocupação permanente de que alguma coisa ruim acontecerá. Esses sinais precisam ser avaliados principalmente quando se repetem ou provocam limitações na rotina.

Mudanças repentinas de comportamento também merecem atenção. Um jovem antes comunicativo pode começar a se isolar, abandonar atividades de que gostava, evitar amigos, faltar às aulas ou passar horas trancado no quarto. Em outros casos, pode ficar mais agitado, discutir constantemente ou apresentar uma queda inesperada no rendimento escolar.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 mostrou que 42,9% dos estudantes disseram sentir irritação, nervosismo ou mau humor por qualquer coisa na maioria das vezes ou sempre. Entre as meninas, o percentual chegou a 58,1%, enquanto entre os meninos ficou em 27,6%.

O levantamento também identificou que 26,1% dos estudantes de 13 a 17 anos sentiam, na maioria das vezes ou sempre, que ninguém se preocupava com eles. A percepção foi relatada por 33,3% das meninas e por 19% dos meninos, mostrando como a sensação de falta de apoio pode atingir uma parcela significativa dos adolescentes.

Especialistas alertam que a ansiedade juvenil não possui uma única causa. O problema pode resultar da combinação de características individuais, predisposição biológica, ambiente familiar, experiências escolares, condições sociais e acontecimentos vividos pelo adolescente.

A pressão pelo bom desempenho aparece entre os fatores mais frequentes. Muitos jovens convivem com cobranças por notas, aprovação em vestibulares, definição precoce de uma carreira e necessidade de corresponder às expectativas da família. Até mesmo alunos com bom rendimento podem sofrer por medo de falhar ou decepcionar.

O ambiente escolar também pode produzir sofrimento quando existem bullying, exclusão, conflitos, discriminação ou dificuldades de aprendizagem. O medo de ser ridicularizado e a sensação de não pertencer ao grupo podem fazer com que o estudante evite a escola e desenvolva sintomas físicos nos dias de aula.

As redes sociais ocupam uma posição importante nessa discussão, mas não devem ser apontadas como a única causa. A exposição constante a vidas aparentemente perfeitas, padrões inalcançáveis e avaliações públicas pode estimular comparações e aumentar o sentimento de inadequação.

Notificações, vídeos curtos e a necessidade de acompanhar tudo o que acontece também dificultam momentos de descanso mental. Quando o celular permanece ao lado da cama durante a madrugada, o adolescente pode dormir menos e despertar várias vezes, prejudicando o humor, a memória e a capacidade de concentração no dia seguinte.

O uso excessivo das telas ainda pode reduzir atividades importantes para o desenvolvimento emocional, como conversas presenciais, esportes, convivência familiar e momentos de lazer sem estímulos digitais. O objetivo, porém, não deve ser simplesmente retirar o aparelho como punição, mas construir regras equilibradas e compatíveis com a idade.

A pandemia também deixou consequências importantes. O fechamento das escolas, o isolamento, a perda da rotina e a incerteza vivida durante aquele período atingiram crianças e adolescentes em uma etapa decisiva do desenvolvimento. Mesmo depois da retomada das atividades, algumas dificuldades emocionais permaneceram.

Problemas financeiros, conflitos dentro de casa, mudanças frequentes, separações familiares, luto, violência e falta de perspectivas também podem aumentar a vulnerabilidade. Por isso, reduzir a ansiedade juvenil a “excesso de celular” pode impedir que questões mais profundas sejam identificadas.

A maneira como os adultos reagem faz diferença. Frases como “isso é frescura”, “na minha época não existia isso” ou “você não tem motivo para ficar ansioso” tendem a fechar o espaço de diálogo e fazer o adolescente esconder o que sente.

A família deve demonstrar disponibilidade para ouvir sem transformar imediatamente a conversa em bronca, interrogatório ou comparação. Perguntas simples sobre a escola, as amizades e as preocupações podem abrir caminho para que o jovem se expresse com mais confiança.

Validar um sentimento não significa concordar com todas as interpretações do adolescente. Significa reconhecer que o sofrimento é real para ele e que merece atenção. Depois do acolhimento, os responsáveis podem ajudá-lo a organizar os pensamentos e buscar soluções possíveis.

Manter uma rotina previsível também ajuda. Horários minimamente regulares para dormir, acordar, estudar, alimentar-se e descansar proporcionam segurança e evitam que a vida se transforme em uma sequência de cobranças e tarefas acumuladas.

A prática de atividades físicas, o contato com amigos, os momentos ao ar livre e a participação em atividades culturais ou comunitárias podem funcionar como fatores de proteção. Essas medidas, contudo, não substituem uma avaliação profissional quando os sintomas são frequentes ou intensos.

A escola possui papel fundamental na identificação precoce. Professores e equipes pedagógicas convivem diariamente com os alunos e podem perceber mudanças de rendimento, faltas repetidas, isolamento, agitação ou dificuldade para realizar tarefas.

O acolhimento escolar deve preservar a privacidade do estudante e evitar exposição diante da turma. O ideal é estabelecer uma comunicação cuidadosa com a família e construir estratégias que permitam a continuidade dos estudos sem ignorar as necessidades emocionais do adolescente.

Buscar acompanhamento psicológico não deve ser considerado uma medida extrema. O atendimento pode ajudar o jovem a compreender os gatilhos da ansiedade, desenvolver formas mais saudáveis de enfrentar desafios e melhorar a comunicação com familiares e colegas.

Em algumas situações, uma avaliação médica ou psiquiátrica também pode ser indicada. Qualquer tratamento, especialmente o uso de medicamentos, precisa ser definido individualmente e acompanhado por profissional habilitado. A família não deve oferecer remédios por conta própria nem utilizar prescrições feitas para outras pessoas.

No SUS, a porta de entrada pode ser a Unidade Básica de Saúde mais próxima da residência. Conforme a avaliação, o adolescente pode ser acompanhado pela própria equipe ou encaminhado para outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial, incluindo unidades especializadas no atendimento de crianças e adolescentes.

Os Centros de Atenção Psicossocial também podem receber pessoas que procuram diretamente o serviço, embora a organização do atendimento varie conforme a rede existente em cada município. Em situações de crise intensa ou emergência clínica, a orientação é procurar uma unidade de urgência ou acionar o Samu pelo telefone 192.

A Organização Pan-Americana da Saúde destaca que metade das condições relacionadas à saúde mental começa até os 14 anos, mas muitos casos não são identificados nem tratados. O órgão também reforça que ambientes de apoio na família, na escola e na comunidade são fundamentais para o bem-estar emocional dos adolescentes.

O crescimento da procura por atendimento deve ser visto como um sinal de que mais jovens estão sofrendo, mas também de que parte deles passou a encontrar espaço para pedir ajuda. O desafio agora é garantir que essa procura seja recebida por uma rede preparada, sem julgamentos e com atendimento no momento adequado.

Para as famílias, a principal orientação é não esperar que o problema se agrave. Quando o adolescente apresenta mudanças persistentes, prejuízo escolar, isolamento, crises frequentes, alterações importantes de sono ou dificuldade para manter a rotina, é necessário buscar avaliação profissional.

A ansiedade tem tratamento e pode ser controlada. Quanto mais cedo o sofrimento é reconhecido, maiores são as possibilidades de evitar agravamentos e permitir que o adolescente retome suas atividades, fortaleça seus vínculos e atravesse essa fase da vida com mais segurança e apoio.

Por Fernando Rodrigues - Redação Portal G37

Fernando Rodrigues é diretor do Portal G37 de Notícias, sediado em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sua trajetória está ligada à imprensa regional e à história do jornal Gazeta do Oeste, veículo do qual assumiu a direção após a morte de seu pai, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, em 2004. Em 2018, acompanhou a transformação definitiva do jornal para o ambiente digital, processo que consolidou o Portal G37 como continuidade dessa trajetória no jornalismo local e regional.
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