Vídeo mostra enxurrada arrastando veículos e destruindo estruturas no Nepal; ao menos 95 pessoas morreram e centenas estão desaparecidas

Uma inundação repentina de grandes proporções atingiu nesta quarta-feira (26) o norte do Nepal, próximo à fronteira com a região chinesa do Tibete, deixando ao menos 95 mortos no território nepalês e centenas de pessoas desaparecidas. A cheia avançou pelos vales dos rios Lhende, Bhote Koshi e Trishuli, arrastando casas, veículos, estradas, pontes e estruturas de usinas hidrelétricas. No lado chinês da fronteira, outras três mortes foram confirmadas, elevando para pelo menos 98 o número de mortos na região atingida.
Vídeos verificados divulgados após o desastre mostram a rapidez com que a massa de água, lama, pedras e outros detritos avançou pela região. Imagens de câmeras instaladas na área de fronteira registraram pessoas correndo enquanto a enxurrada se aproximava e, poucos instantes depois, atingia edificações e veículos. Outras gravações feitas nas áreas afetadas mostram carros carregados pela correnteza, imóveis parcialmente soterrados e extensas áreas cobertas por lama.
A Polícia do Nepal informou que, até as 19h14 desta quarta-feira, no horário local, havia localizado 95 corpos em diferentes distritos atingidos pela inundação. O balanço oficial aponta uma morte em Rasuwa, 11 em Nuwakot, 18 em Dhading, 33 em Chitwan, 16 em Gorkha, cinco em Tanahun e 11 em Nawalparasi East. As buscas continuavam e o número de vítimas ainda poderia aumentar diante da quantidade de desaparecidos.
A região de Rasuwa, na fronteira norte do Nepal com o Tibete, foi uma das primeiras atingidas. Localidades como Syapru Besi e Timure sofreram danos provocados pela elevação repentina do rio. A água seguiu posteriormente pelo sistema hidrográfico em direção a Nuwakot e outros distritos, carregando grande quantidade de sedimentos, rochas e destroços. Autoridades determinaram que moradores de áreas próximas aos rios deixassem pontos considerados de risco e buscassem locais mais elevados.
A tragédia também atingiu a região de Gyirong, importante passagem terrestre entre o Nepal e a China. Segundo balanço divulgado por autoridades chinesas e repercutido pela Associated Press, pelo menos três pessoas morreram no lado tibetano e aproximadamente 265 estavam desaparecidas. Estradas foram bloqueadas, construções ficaram soterradas e serviços de comunicação e energia foram afetados.
Um dos pontos de maior preocupação envolve os turistas que estavam na região. Informações divulgadas pelas autoridades nepalesas apontavam centenas de viajantes sem localização confirmada, incluindo ao menos 341 estrangeiros. Entre os desaparecidos estavam cidadãos da Índia, Estados Unidos, Reino Unido e de outros países. Muitos viajavam por rotas turísticas e religiosas da região do Himalaia quando a inundação ocorreu.
Entre os estrangeiros procurados estavam mais de cem indianos, três cidadãos dos Estados Unidos e 12 britânicos, segundo informações disponibilizadas ao longo desta quarta-feira. O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul também informou que oito sul-coreanos que trabalhavam em um projeto hidrelétrico estavam desaparecidos, enquanto outros dez ficaram isolados após a inundação.
Equipes da Polícia, do Exército e de outros órgãos de emergência foram mobilizadas para localizar sobreviventes e retirar moradores das áreas atingidas. O trabalho enfrentou dificuldades devido ao volume da água, aos deslizamentos e à destruição das vias de acesso. Em alguns pontos de Rasuwa, helicópteros tiveram dificuldade para pousar devido às condições do terreno e ao nível dos rios. Mais de uma centena de pessoas já havia sido retirada de áreas afetadas ou socorrida durante as primeiras operações.
A causa da inundação começou a ser analisada por autoridades e especialistas ainda nesta quarta-feira. Imagens de satélite indicaram que uma grande massa de gelo e rochas se desprendeu de uma geleira em elevada altitude, caiu sobre o vale e provocou uma onda de detritos que alcançou o sistema do rio Lhende. Segundo especialistas ouvidos pela Reuters, parte da geleira, situada a aproximadamente 5.200 metros de altitude, teria despencado mais de 1.200 metros até o vale.
O desprendimento teria lançado uma grande quantidade de gelo, rochas e sedimentos no curso d’água, produzindo uma cheia extremamente rápida. Análises preliminares apontaram que o nível da água chegou a subir vários metros em pouco tempo em áreas a jusante. A Reuters informou que a elevação pode ter alcançado cerca de nove metros em determinados pontos dentro de aproximadamente meia hora.
Também está sendo investigada uma possível relação com um terremoto de magnitude 4,4 registrado anteriormente na região. Autoridades nepalesas citaram a possibilidade de o tremor ter contribuído para desencadear o desprendimento de gelo e rochas. Especialistas, porém, ainda analisam o episódio e não havia, até a atualização desta quarta-feira, conclusão definitiva de que o terremoto tenha sido o responsável direto pela avalanche.
Outro fator analisado é a situação das geleiras do Himalaia. Especialistas vêm alertando para o aumento dos riscos relacionados ao derretimento de gelo e à formação ou expansão de lagos glaciais na região. Temperaturas elevadas podem contribuir para tornar estruturas de gelo e rocha menos estáveis, embora a participação exata desses fatores na tragédia desta quarta-feira ainda dependa de estudos específicos.
Os danos também atingiram o sistema energético do Nepal. Projetos hidrelétricos situados ao longo dos rios sofreram impactos, e o Ministério da Energia informou que aproximadamente 430 megawatts de capacidade elétrica foram afetados. Estradas, pontes e linhas de transmissão também sofreram danos, dificultando tanto o deslocamento da população quanto a chegada das equipes de resgate.
A extensão da cheia levou autoridades a emitirem alertas para regiões localizadas rio abaixo. O Bhote Koshi se conecta ao Trishuli, que posteriormente integra um sistema fluvial que segue em direção à Índia. No estado indiano de Bihar, aproximadamente cinco mil pessoas foram retiradas preventivamente de áreas vulneráveis, e as autoridades preparavam a remoção de até 10 mil a 12 mil moradores, segundo a Reuters. Alertas também foram emitidos em Uttar Pradesh.
As autoridades também mantinham atenção para a possibilidade de uma nova onda de inundação. Especialistas identificaram sinais de que outro bloqueio poderia ter se formado rio acima com pedras, gelo e sedimentos. Caso uma barreira natural desse tipo se rompa repentinamente, uma nova quantidade de água e detritos pode avançar pelo vale. Moradores das margens dos rios foram orientados a permanecer afastados das áreas de risco.
A região já havia sido atingida por uma inundação de origem glacial em julho de 2025. Naquela ocasião, o rápido esvaziamento de um lago sobre uma geleira no Tibete provocou uma cheia no rio Lhende/Bhote Koshi, matou pelo menos nove pessoas e deixou outras desaparecidas. Uma ponte que ligava Nepal e China também foi destruída, afetando durante meses o transporte e o comércio entre os dois países.
O desastre desta quarta-feira, entretanto, alcançou uma área muito mais extensa. Enquanto Rasuwa registrou a chegada inicial da cheia, corpos foram encontrados em vários distritos localizados rio abaixo, demonstrando o alcance da corrente de água e detritos. Casas ficaram cobertas por lama, veículos foram soterrados e comunidades perderam acessos rodoviários após pontes e trechos de estradas serem levados pela correnteza.
Na região chinesa do Tibete, equipes de emergência também realizavam buscas em Gyirong e áreas próximas. Centenas de integrantes das forças de resgate foram enviados aos locais atingidos. O presidente da China, Xi Jinping, determinou a intensificação das operações de busca e pediu reforço no monitoramento para evitar novas vítimas caso ocorram deslizamentos ou outras cheias.
No Nepal, o governo mobilizou forças de segurança, equipes médicas e meios aéreos para as operações. O primeiro-ministro Balendra Shah orientou a retirada de moradores das partes mais baixas e pediu atenção especial às comunidades localizadas ao longo dos rios. O país também passou a coordenar ações de assistência com nações que possuem cidadãos entre os desaparecidos.
As buscas devem continuar durante as próximas horas e dias. Como centenas de pessoas ainda não haviam sido localizadas e diversas áreas permaneciam com acesso limitado, as autoridades alertaram que os balanços de mortos, desaparecidos, feridos e resgatados permanecem sujeitos a alterações. Até a atualização oficial disponível nesta quarta-feira, 95 mortes estavam confirmadas no Nepal e três no lado chinês da fronteira, totalizando ao menos 98 vítimas fatais na região atingida.









