Polícia investiga familiares e amigos que teriam ajudado Lázaro de Ermida durante fuga

A prisão de Juares Marques dos Santos, conhecido como “Lázaro de Ermida”, abriu uma nova frente de investigação para a Polícia Civil em Divinópolis. Depois de permanecer sem ser localizado durante praticamente um ano, o homem foi preso na manhã desta quinta-feira, 13 de agosto, em Santo Antônio do Monte. Agora, os investigadores procuram esclarecer se familiares, amigos e outras pessoas próximas forneceram ajuda para que ele permanecesse escondido enquanto era procurado pelo feminicídio de Lucélia Batista Silva, de 39 anos.
A suspeita de que Juares contou com uma rede de apoio foi apresentada pelo delegado Vivaldi Levilesse após a captura. Conforme as informações divulgadas pelas forças de segurança, a Polícia Civil ainda apura quem teria prestado auxílio, qual teria sido a participação dessas pessoas e de que maneira a ajuda ocorreu. Até o momento, nenhum nome de possível colaborador foi divulgado oficialmente, assim como não foi informado quantas pessoas estão sendo investigadas nessa nova etapa.
A investigação deverá verificar se houve fornecimento de alimentos, abrigo, transporte ou outras formas de auxílio que tenham contribuído para que o procurado evitasse a localização pelas equipes policiais. A existência dessas modalidades específicas de ajuda, entretanto, ainda precisa ser comprovada. O que está confirmado até agora é que a polícia suspeita da participação de pessoas próximas e continuará as diligências para esclarecer a possível rede de apoio.
O delegado informou que eventual auxílio destinado conscientemente a manter Juares distante da ação policial poderá ser analisado sob a perspectiva do crime de favorecimento pessoal. O artigo 348 do Código Penal trata da conduta de auxiliar o autor de um crime a se subtrair da ação de uma autoridade pública. Quando o delito principal prevê pena de reclusão, a pena para favorecimento pessoal é de um a seis meses de detenção e multa.
A eventual responsabilização dos familiares, porém, dependerá do grau de parentesco e das circunstâncias comprovadas durante a investigação. O próprio Código Penal estabelece que ascendente, descendente, cônjuge ou irmão que preste esse tipo de auxílio fica isento de pena pelo crime de favorecimento pessoal. Por isso, embora a investigação possa alcançar parentes e outras pessoas próximas, a situação jurídica de cada envolvido deverá ser analisada individualmente.
Juares foi localizado durante uma ação conjunta das polícias Militar e Civil em Santo Antônio do Monte, no Centro-Oeste de Minas. Informações apresentadas após a prisão apontam que ele teria sido visto caminhando pela região antes de ser localizado pelas equipes. O local onde ocorreu a captura fica próximo a uma linha férrea, área compatível com o tipo de deslocamento por regiões menos movimentadas que vinha sendo considerado durante as buscas.
A prisão ocorreu 363 dias depois da agressão contra Lucélia, registrada em 15 de agosto de 2025. Durante esse período, diferentes operações foram realizadas em áreas rurais de Divinópolis e municípios próximos. A suspeita das forças de segurança era de que Juares mudava constantemente de local para dificultar sua localização, permanecendo principalmente em áreas de mata e utilizando estradas rurais e caminhos secundários.
As buscas passaram por pontos da região de Santo Antônio dos Campos, conhecida como Ermida, comunidade dos Lopes e outras localidades rurais de Divinópolis. Moradores relataram possíveis aparições e encontraram indícios de circulação em propriedades e áreas de vegetação. Algumas denúncias levaram a novas operações, mas Juares conseguia deixar os locais antes da chegada dos policiais.
Em alguns pontos, foram encontrados abrigos improvisados em áreas de mata, que levantaram a suspeita de que poderiam ter sido utilizados pelo procurado. A polícia também recebeu informações sobre invasões de propriedades e desaparecimento de alimentos. Nem todos esses episódios foram formalmente atribuídos a Juares, motivo pelo qual a investigação precisa separar os fatos comprovados dos relatos registrados durante os meses de procura.
Em janeiro deste ano, as buscas avançaram também para a zona rural de Perdigão. Na época, novos vestígios e informações levaram equipes a ampliar o raio das operações. Drones chegaram a ser utilizados para sobrevoar áreas de difícil acesso, enquanto policiais verificavam estradas vicinais, propriedades e trechos de mata entre Divinópolis e cidades próximas.
Naquele período, uma das hipóteses avaliadas era de que o procurado se deslocasse principalmente durante a noite e utilizasse caminhos rurais para evitar rodovias e áreas mais movimentadas. As regiões pesquisadas eram extensas, o que aumentava a dificuldade das buscas e exigia que as equipes verificassem cada nova informação encaminhada pelos moradores.
Outro episódio entrou no histórico da fuga em março de 2026. Um morador da comunidade de Lava Pés, na zona rural de Divinópolis, relatou ter sido abordado por um homem que ele identificou como Juares. Segundo o relato registrado na época, um idoso teria sido ameaçado com uma faca e obrigado a conduzir o próprio Volkswagen Parati até determinado ponto antes de entregar o veículo e outros pertences.
O carro foi posteriormente localizado na zona rural de Formiga. Na ocasião inicial, entretanto, a Polícia Militar informou que ainda não confirmava oficialmente que Juares fosse o autor daquela ocorrência. Dessa forma, o episódio deve permanecer tratado como uma suspeita atribuída ao foragido, e não como autoria definitivamente comprovada.
Ao longo dos meses também surgiram relatos de furtos, roubos e ameaças em comunidades rurais. Parte das informações era comunicada diretamente pelos moradores, que passaram a acompanhar a movimentação nas áreas de mata e repassar possíveis indícios às forças de segurança. Esse fluxo de informações levou a operações em vários pontos, embora muitas buscas terminassem sem a localização do procurado.
A situação chegou a ser discutida recentemente em reunião da Associação Comunitária para Assuntos de Segurança Pública (Acasp). À época, a Polícia Militar informou que as buscas permaneciam ativas na região de Ermida. O caso havia causado sucessivas mobilizações das equipes devido aos relatos sobre possíveis passagens do suspeito por propriedades e comunidades rurais.
Após a captura desta quinta-feira, outro dado divulgado foi que Juares possuía quatro mandados de prisão em aberto. Dois estariam vinculados ao caso envolvendo Lucélia Batista Silva. Um terceiro havia sido expedido pela comarca de Arinos, no Norte de Minas, relacionado a um homicídio qualificado, enquanto o quarto era decorrente de um caso de roubo.
A existência dos mandados não significa, por si só, condenação definitiva nos respectivos processos. Cada procedimento possui tramitação própria e deverá seguir para análise do Poder Judiciário. No caso de Lucélia, a Polícia Civil já concluiu o inquérito e indiciou Juares por feminicídio consumado, enquanto a prisão preventiva havia sido decretada pela Justiça.
As forças de segurança também informaram que há registros policiais anteriores envolvendo Juares. Entre as ocorrências mencionadas estão delitos relacionados a homicídio ou feminicídio, roubo, furto, lesão corporal, importunação sexual e apropriação indébita. Esses registros não devem ser confundidos automaticamente com condenações definitivas, já que a situação processual precisa ser verificada separadamente em cada caso.
No inquérito sobre a morte de Lucélia, a Polícia Civil também havia identificado registro anterior de tentativa de homicídio contra uma ex-companheira. Durante a apuração do feminicídio de 2025, investigadores levantaram ainda informações sobre um histórico de violência no relacionamento mantido entre Juares e Lucélia.
Lucélia e Juares mantiveram relacionamento por aproximadamente 15 anos e tiveram três filhas. Conforme a investigação divulgada pela Polícia Civil, as meninas tinham, à época dos levantamentos, 13, 11 e 8 anos. Os investigadores apontaram que episódios de comportamento violento teriam ocorrido durante a convivência familiar.
O crime que desencadeou as buscas ocorreu em 15 de agosto de 2025, na residência do casal, na comunidade do Choro, zona rural de Divinópolis. A investigação apontou que, no dia anterior, o casal havia discutido e que Juares deixou o imóvel fazendo ameaças. Na manhã seguinte, ele teria retornado à residência e iniciado as agressões.
Lucélia foi atingida na cabeça com um banco de madeira. Durante as agressões, ela pediu que a filha mais nova procurasse ajuda. A menina conseguiu chegar até vizinhos, que foram à residência e encontraram a mulher caída na cozinha, com um ferimento grave na cabeça. O objeto apontado como instrumento utilizado no ataque foi apreendido durante os trabalhos policiais.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência foi acionado e Lucélia foi encaminhada em estado grave ao Complexo de Saúde São João de Deus, em Divinópolis. Ela permaneceu hospitalizada por 26 dias, mas morreu em 9 de setembro de 2025, em decorrência dos ferimentos.
A Justiça havia decretado a prisão preventiva de Juares no dia 3 de setembro, enquanto Lucélia ainda estava internada. Depois da morte da vítima, a investigação foi concluída pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e o caso passou a ser tratado como feminicídio consumado.
Durante os meses seguintes, a combinação de áreas de mata, propriedades rurais, caminhos secundários e mudanças constantes de localização dificultou as buscas. A confirmação de que ele foi encontrado em Santo Antônio do Monte reforçou que o deslocamento ultrapassou a zona rural de Divinópolis, alcançando outros municípios da região.
O apelido “Lázaro de Ermida” passou a ser utilizado popularmente durante o período em que Juares permaneceu escondido. A referência surgiu em comparação com Lázaro Barbosa, criminoso que permaneceu foragido por semanas em áreas rurais de Goiás em 2021. O apelido não é uma identificação oficial das forças de segurança.
Com a prisão, o foco da investigação deixa de ser apenas a localização do indiciado e passa também pela reconstrução dos quase 12 meses em que ele permaneceu distante das equipes policiais. A Polícia Civil pretende esclarecer como conseguia se manter nas áreas onde se escondia e se havia pessoas oferecendo suporte para que continuasse evitando a prisão.
Até a tarde desta quinta-feira, não haviam sido divulgados os nomes dos possíveis colaboradores, o número exato de investigados nem provas específicas sobre a ajuda que teria sido prestada. Também não havia informação oficial sobre prisão de outras pessoas por favorecimento pessoal relacionada à fuga de Juares. A investigação continua para individualizar eventuais condutas antes de qualquer responsabilização.
A prisão em Santo Antônio do Monte encerrou a etapa de buscas pelo indiciado, mas não encerrou as apurações relacionadas ao caso. Além do processo pelo feminicídio de Lucélia e dos demais mandados existentes contra Juares, a Polícia Civil deverá aprofundar a investigação sobre possíveis pessoas que tenham contribuído para que ele permanecesse escondido durante o período em que era procurado.









