Morre Frei Eliseu Tijdink, missionário franciscano holandês que marcou Minas e Bahia com fé, comunicação e serviço

Morreu neste domingo, 14 de junho de 2026, aos 92 anos, Frei Eliseu Tijdink, franciscano holandês que dedicou a vida à missão, à evangelização, à comunicação e ao serviço aos mais simples. Nascido em 4 de setembro de 1933, em Lichtenvoorde, no leste dos Países Baixos, ele atravessou o oceano para construir no Brasil uma história marcada pela coragem, pela simplicidade e pela presença firme junto às comunidades por onde passou.
A morte de Frei Eliseu foi recebida com profunda comoção pela família franciscana, por fiéis, amigos, comunicadores e moradores de regiões de Minas Gerais e da Bahia que tiveram suas vidas tocadas por sua atuação. Mais do que um religioso, ele foi lembrado como um missionário de ação concreta, alguém que uniu fé, trabalho, criatividade e compromisso social.
Ainda menino, Frei Eliseu cresceu em um cenário marcado pela Segunda Guerra Mundial. Viveu a ocupação nazista em seu país e, desde cedo, conheceu de perto a dor provocada pela injustiça e pela violência. Essa experiência ajudou a formar nele um espírito de resistência, sensibilidade com os mais frágeis e defesa da liberdade, marcas que acompanhariam toda a sua trajetória religiosa e humana.
A vocação franciscana despertou cedo, inspirada pelos frades de sua região. Mesmo enfrentando dificuldades no período de formação, encontrou apoio, acolhimento e incentivo para seguir o caminho religioso. Com o tempo, a leitura de relatos de confrades brasileiros fez nascer nele o desejo de servir no Brasil. Em 1959, ainda sem falar português, desembarcou no país. A partir dali, sua vida se misturou definitivamente à história das comunidades brasileiras.
Seu primeiro destino foi Ubá, em Minas Gerais, onde mergulhou no aprendizado da língua e da cultura local. Visionário e prático, buscou meios de facilitar o trabalho pastoral nas comunidades rurais. Adquiriu um jipe, algo incomum para a época, para alcançar locais mais distantes e atender melhor as pessoas que viviam longe dos centros urbanos.
A coragem de Frei Eliseu também se revelou em situações difíceis. Ao defender uma floresta nativa pertencente ao patrimônio da paróquia e impedir sua venda, acabou pagando o preço de sua postura firme. A atitude lhe rendeu uma transferência para a Bahia, mas também revelou uma característica que jamais deixaria de acompanhá-lo: a disposição de dizer não quando a defesa da vida, da criação e das comunidades exigia firmeza.
Na Bahia, viveu experiências profundas de missão. Em Lagedão, morou sozinho, ajudou na construção de igrejas e buscou recursos para manter as atividades pastorais. Com criatividade, chegou a transformar uma simples polia de jipe em um sistema para cortar madeira, colocando a inteligência prática a serviço da missão e das necessidades das comunidades.
Em Caravelas, no extremo sul baiano, enfrentou isolamento, dificuldades de transporte e desafios culturais. Ainda assim, ajudou a fazer florescer projetos sociais concretos, como uma pequena fábrica de filtros de água para comunidades carentes. Foi também secretário do primeiro bispo da Diocese de Caravelas, acompanhando viagens longas por estradas de terra e levando presença religiosa, palavra de fé e apoio aos lugares mais esquecidos.
A partir de 1986, Frei Eliseu assumiu uma missão que marcaria de forma definitiva sua história: a direção da Rádio Santa Cruz, em Jequitinhonha, Minas Gerais. Em uma região historicamente marcada por desafios sociais, seca e pobreza, ele viu na comunicação uma forma de evangelizar, informar, formar consciência e aproximar as pessoas.
À frente da emissora, modernizou a rádio, investiu na formação de colaboradores e ampliou o alcance do sinal. Mais do que dirigir um veículo de comunicação, transformou a Rádio Santa Cruz em instrumento de participação popular, solidariedade, denúncia de injustiças, prestação de serviço e anúncio do Evangelho. Para ele, comunicar também era servir.
Frei Eliseu costumava defender que a comunicação era parte essencial da evangelização. Sob sua liderança, a rádio se consolidou como referência no interior mineiro, mostrando que um meio de comunicação pode ser, ao mesmo tempo, profissional, popular, humano e profundamente ligado às necessidades do povo.
Mesmo após a aposentadoria, ele continuou ativo. Participava de missões, visitava comunidades e seguia atento à importância da Rádio Santa Cruz para a Igreja e para o povo do Vale do Jequitinhonha. Em 2026, celebrou 74 anos de vida religiosa, uma trajetória longa, coerente e marcada pela fidelidade à vocação franciscana.
A partida de Frei Eliseu encerra uma vida terrena, mas não apaga sua presença. Seu legado permanece nas comunidades que ajudou a fortalecer, nas igrejas que ajudou a construir, nos projetos que incentivou, nos ouvintes que encontrou pelas ondas do rádio e nos confrades, leigos e amigos que o chamavam de irmão.
A frase atribuída a ele resume a serenidade com que encarava a morte: “Que a nossa irmã morte seja bem acolhida, como a gente acolhe o sono, depois de um dia bem ocupado”. Para quem conheceu sua caminhada, a imagem é precisa. Frei Eliseu viveu um dia longo, intenso, fecundo e inteiramente dedicado ao serviço.
As despedidas a Frei Eliseu Tijdink acontecem no Santuário Santo Antônio, em Divinópolis. O velório está previsto para esta segunda-feira, 15 de junho, às 9h, e a missa de corpo presente será celebrada às 10h. As demais informações sobre o sepultamento devem ser divulgadas posteriormente.
Frei Eliseu Tijdink deixa um rastro de gratidão entre o povo de Minas, da Bahia e do Vale do Jequitinhonha. Sua história permanece como testemunho de fé, simplicidade, coragem e serviço. Um missionário que veio de longe, aprendeu a língua do povo, caminhou com os pobres, defendeu a vida e fez da comunicação uma ponte de esperança.
Descansa em paz, Frei Eliseu.









