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São João de Deus celebra o legado da Nefrologia com lançamento de livro por médico pioneiro que ajudou a construir essa história

 A trajetória do médico nefrologista e pesquisador Dr. Sérgio Ayrton Lima Pinto se funde com importantes capítulos da história da nefrologia no interior de Minas Gerais. Um dos protagonistas da interiorização da especialidade, Sérgio participou da criação dos serviços de nefrologia de Patos de Minas, Formiga e Divinópolis. No São João de Deus, sua atuação ajudou a transformar uma necessidade urgente em uma estrutura de referência, que cresceu ao longo dos anos e passou a reunir hemodiálise, transplante renal, formação de especialistas, subespecialidades e produção científica. “Nós notávamos uma demanda muito importante de pacientes da região”, relembra. A realidade era especialmente dura para quem precisava viajar três vezes por semana até Belo Horizonte para realizar hemodiálise.

Foi também em Divinópolis que Sérgio se viu diante de um dos maiores desafios de sua carreira. No fim da década de 1990, pacientes, principalmente adultos provenientes de Nova Serrana, começaram a apresentar uma forma incomum de glomerulonefrite pós-infecciosa. O que parecia inicialmente uma sucessão de casos isolados transformou-se em uma investigação epidemiológica de grandes proporções. Exames, hipóteses e pesquisas em laboratórios brasileiros não conseguiam identificar o agente causador. Com o apoio do Ministério da Saúde, especialistas do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, foram mobilizados para auxiliar na investigação.

A resposta levou os pesquisadores para além dos limites de Nova Serrana. A investigação identificou o Streptococcus zooepidemicus, bactéria associada a animais, como responsável pelo surto, e estabeleceu sua relação com o consumo de queijo fresco produzido com leite cru e distribuído na região. A origem foi localizada em uma propriedade de Quilombo do Gaia, pertencente a São Gonçalo do Pará. Com a identificação da fonte e o tratamento dos animais contaminados, a epidemia desapareceu. “Nós conseguimos identificar o local onde as vacas contaminadas estavam, tratamos os animais e a epidemia desapareceu, felizmente”, conta o médico.

Mas a investigação não terminou com o fim do surto. Durante mais de 20 anos, 134 pacientes foram acompanhados para responder uma pergunta que permanecia sem resposta na literatura médica: quais seriam as consequências, a longo prazo, daquela infecção em adultos? O acompanhamento revelou importantes repercussões tardias, entre elas hipertensão e doença renal crônica, e deu origem a estudos que alcançaram reconhecimento internacional. Segundo Sérgio, uma das pesquisas mais recentes passou a ser utilizada como referência em uma das principais fontes mundiais de consulta em nefrologia para responder questões relacionadas ao prognóstico da doença em adultos.

Agora, essa história ganha uma nova forma com o livro “Epidemia de Glomerulonefrite de Nova Serrana”, escrito por Sérgio para registrar uma investigação que, segundo ele, foi a maior epidemia causada pelo Streptococcus zooepidemicus já descrita no mundo. Narrado como uma investigação policial, mas preservando o rigor científico, o livro busca tornar acessível ao público uma experiência que ultrapassa a medicina: mostra como uma epidemia nasce, como a ciência encontra suas pistas e como o conhecimento produzido pode proteger gerações futuras. Uma história que começou no interior de Minas, transformou a prática médica e demonstra, na essência, aquilo que move o São João de Deus: usar ciência, cuidado e conhecimento para mudar histórias.

Por Fernando Rodrigues - Redação Portal G37

Fernando Rodrigues é diretor do Portal G37 de Notícias, sediado em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Sua trajetória está ligada à imprensa regional e à história do jornal Gazeta do Oeste, veículo do qual assumiu a direção após a morte de seu pai, Antônio Eustáquio Rodrigues Cassimiro, em 2004. Em 2018, acompanhou a transformação definitiva do jornal para o ambiente digital, processo que consolidou o Portal G37 como continuidade dessa trajetória no jornalismo local e regional.

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