APRENDER PRA NÃO SERMOS RACISTAS

Bruno Silva Quirino
Pardo sob os padrões europeus, aqui no Brasil sou considerado branco. No meu país, nunca fui olhado torto de graça nem percebi as pessoas mudarem de calçada por medo de mim. Também não foi expulso de lojas ou perseguido por seguranças num supermercado.
Fui criança nos anos 1980 e adolescente nos 1990, donde se pode imaginar que tipo de instruções recebi da sociedade daqueles tempos, no que se refere ao racismo. Formei-me, na prática, em racismo, sem nem saber. Um amiguinho, preto, tinha o apelido de “Micão” e isso era absolutamente normal para a gente.
- “Preto, quando não caga na entrada, caga na saída”.
- “Que serviço mal feito! Serviço de preto!”
- “Branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão”.
É claro que essas afirmações eram verdadeiros ataques, geralmente disfarçados de brincadeiras, aparecendo como piadas, tudo socialmente aceito. É meu amigo, o que tem chamar de Micão? Ele nem reclama.
Demorou muito para a sociedade entender o caráter violento desses comportamentos. Se, mesmo se tratando de ultrajes escancarados, a gente custou pra ficar com horror a eles, imaginem convencer a galera que expressões negativas como “mala preta”, “a coisa tá preta”, “preto de alma branca”, “mercado negro” são ofensivos?
Ainda muito mais complexa é a construção da consciência a respeito da enorme dívida social que temos com os pretos, em razão da subjugação desse povo ao longo de séculos, com consequências que estapeiam nossas faces diariamente. São pretos a grande maioria dos pobres, são pretos a maior parte dos presos (especialmente por crimes pequenos e submetidos a prisões antes da condenação), são pretos grande parte dos analfabetos e tantos etc. mais…
Dados os primeiros passos – incipientes, lentos, mas necessários –, a gente precisa começar a rejeitar qualquer projeção racista e, para tanto, é fundamental conhecer o racismo. Nesse processo, temos que assimilar que dizer pra um preto de pele não retinta (mais clara) que ele “nem parece preto” é, sim, racismo, mesmo se as palavras soarem carinhosas e forem dadas num contexto fraterno.
Com o objetivo de evoluir nesse sentido, de matar qualquer rastro de comportamento racista que possa ter sobrevivido em mim, escolhi a leitura. Tenho devorado artigos, entrevistas, comentários em redes sociais de quem pode falar sobre o tema: as pessoas submetidas ao racismo, os pretos.
Dois livros me tocaram muito e os trago aqui para recomendar-lhes a leitura. São eles:
Memórias da Plantação – episódios de racismo cotidiano, da portuguesa com africana, Grada Kilomba. Os relatos que ela traz no livro explicam como o racismo é um comportamento absolutamente natural para os brancos e demonstra a sua capacidade destrutiva mesmo que, como falei antes, perpetrado “educadamente”. Transcrevo um pequeno trecho do capítulo “Políticas do cabelo”, em que Alicia, uma moça preta, relata a forma como os brancos agiam com relação a seus cabelos.
Eu realmente odiava quando as pessoas tocavam o meu cabelo: “Que cabelo lindo! Ah, que cabelo interessante! Olha, cabelo afro…” E o tocavam. Eu me sentia como um cachorro sendo acariciado.
Aqui, dizem para Alicia que ela é “diferente”. (…) A diferença é usada como uma marca para a invasão. (…). “Eu nunca tocaria o cabelo de alguém”.
Quanto às piadas racistas, Grada Kilomba nos conta:
Piadas racistas têm a função sádica de provocar prazer a partir da dor infligida e da humilhação do outro radical (…). Poder e hostilidade contra o povo negro são exercidos sem serem necessariamente criticados ou mesmo identificados – afinal, uma piada é só uma brincadeira.
Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. Esse é um romance tão delicioso que o leitor se surpreende quando chega ao final das mais de novecentas páginas. A autora conta, na forma das memórias de uma criança capturada como escrava na África e trazida para o Brasil, a evolução da escravidão. Tendo como pano de fundo sua busca por um filho vendido pelo próprio pai, a protagonista na verdade nos narra a mais bruta história da escravidão dos pretos. Ana Maria Gonçalves deve ter feito um trabalho do nível dos melhores pesquisadores, porque o que Luísa – a personagem principal – faz é ensinar História na forma de estória.
Usem suas armas, seja um livro ou o Tik Tok. Não seja racista, não permita que ninguém aja dessa maneira perto de você, mesmo que sob o disfarce de uma brincadeirinha.









