Brasil

Do coração à cabeça: o voto mais racional

A razão, como mecanismo de tomada de decisões, vem ampliando consideravelmente seus espaços entre os diferentes segmentos sociais, inclusive nos setores populares, tradicionalmente associados a escolhas fortemente influenciadas pelas emoções.

Há sinais cada vez mais claros de que o voto no Brasil começa a deixar o terreno exclusivo da emoção para ingressar no campo da racionalidade. O eleitor continua sensível ao carisma, à empatia, aos símbolos partidários e às narrativas de identidade. Contudo, diante da sequência de escândalos que atravessa a vida pública brasileira desde os tempos do mensalão, tornou-se mais desconfiado, mais exigente e mais atento. Hoje observa com lupa o perfil dos candidatos, o conteúdo de seus discursos, a coerência entre promessas e práticas, o estilo de vida, as companhias e os interesses que os cercam. O coração ainda pulsa, mas a cabeça passou a vigiar.

Esse deslocamento não ocorreu de forma repentina. É resultado de um processo lento de fadiga moral. Ao longo de anos, o brasileiro foi exposto a uma sucessão quase ininterrupta de denúncias, investigações, prisões, delações, CPIs e escândalos de grande repercussão. A política passou a ser percebida, por amplas parcelas da população, como um espaço contaminado por interesses pouco transparentes. Quando a confiança pública se dissolve, o eleitor deixa de agir apenas como torcedor e passa a atuar como juiz. Em vez de aderir automaticamente a mitos e bandeiras, pesa, compara, desconfia e examina.

A eleição presidencial de 4 de outubro de 2026 deverá refletir esse novo espírito. O voto tende a ser menos um gesto de paixão e mais uma sentença. O eleitor não escolherá apenas quem mais o emociona, mas quem mais se aproxima de suas necessidades concretas. E essas necessidades têm nome: saúde, segurança pública e economia. Pesquisa recente do Instituto Datafolha indica que esses três temas compõem hoje a principal fonte de preocupação do país. O cidadão percebe o colapso da saúde pública, teme o avanço da violência e sofre com o encarecimento da vida. Hospitais sucateados, ruas inseguras, renda comprimida e alimentos caros fazem com que o eleitor cobre menos retórica e mais soluções. A campanha tende, assim, a ser menos teatral e mais pragmática.

O bolso, aliás, continua sendo um dos maiores pedagogos da política. Quando a inflação aperta, o romantismo eleitoral perde força. Quando o mercado, o supermercado e a farmácia impõem sacrifícios cotidianos, o eleitor substitui a devoção pelo cálculo. Pergunta não apenas quem fala melhor, mas quem pode entregar mais. Não quer apenas ouvir promessas, mas perceber consistência, preparo, equilíbrio e capacidade de gestão. A urna se transforma, nesse contexto, em um tribunal da vida cotidiana.

Nesse ambiente de exaustão moral, escândalos recentes reforçam a impressão de que as instituições seguem vulneráveis à promiscuidade entre dinheiro, influência e poder. O caso do Banco Master produziu forte impacto. O banqueiro Daniel Vorcaro voltou a ser detido na semana passada em investigações que envolvem corrupção, lavagem de dinheiro, ameaças e fraudes ligadas à instituição financeira, posteriormente liquidada pelo Banco Central. O episódio ampliou a sensação de deterioração sistêmica e alimentou a percepção de que a engrenagem do poder continua capturada por interesses subterrâneos.

A perplexidade cresce quando o eleitor toma conhecimento de que Vorcaro manteve interlocução com figuras influentes do sistema político. Reportagens indicaram que o presidente Lula recebeu o banqueiro em encontro no Palácio do Planalto fora da agenda oficial, embora tenha afirmado posteriormente que encaminhou o assunto para tratamento técnico no Banco Central. Ainda que não haja comprovação de favorecimento direto, a simples proximidade entre personagens centrais da República e operadores envolvidos em escândalos financeiros aprofunda o desgaste ético da política.

No mesmo cenário surge o nome de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, citado no âmbito da CPMI do INSS. A comissão aprovou a quebra de seus sigilos, decisão posteriormente suspensa pelo ministro Flávio Dino. Mesmo sem conclusões definitivas, o episódio possui impacto político ao reforçar, no imaginário coletivo, a recorrente associação entre famílias de poder e zonas nebulosas da administração pública. Em tempos de saturação ética, a simples suspeita já produz efeitos eleitorais.

É nesse contexto que surge a pergunta central da sucessão presidencial: quem tem mais chances? Lula ou Flávio Bolsonaro? Ou haverá espaço para um nome capaz de romper a polarização? Pesquisas recentes indicam um cenário apertado. Levantamento do Datafolha divulgado em 7 de março apontou empate técnico, em eventual segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro: 46% a 43%, dentro da margem de erro. O dado é revelador. Mostra que Lula mantém força política significativa, mas também indica que o bolsonarismo preserva musculatura eleitoral mesmo após os desgastes institucionais dos últimos anos.

Lula entra na disputa com atributos conhecidos: força da máquina política, lembrança positiva entre parcelas populares e presença nacional consolidada. Ainda assim, seu caminho está longe de ser confortável. O desgaste econômico cotidiano, a fadiga de parte do eleitorado com o PT e episódios que alimentam a percepção de deterioração ética tornam sua trajetória mais defensiva.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, se beneficia do capital político do sobrenome, da mobilização do eleitorado antipetista e do impulso proporcionado pelo apoio público do pai. Entretanto, carrega níveis elevados de rejeição e precisará demonstrar que possui densidade política própria, além da herança eleitoral.

Nesse terreno surge também o debate sobre uma alternativa fora da polarização entre lulistas e bolsonaristas. Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Romeu Zema disputam esse espaço. Zema, em particular, não pode mais ser tratado como figura lateral. Reafirmou nesta semana que pretende levar sua candidatura presidencial até o final, recusando a hipótese de atuar apenas como vice. Busca apresentar-se como gestor sóbrio, administrador eficiente e representante de uma direita menos estridente e mais gerencial. Sua força reside na base política consolidada em Minas Gerais e no discurso de austeridade administrativa. Sua dificuldade está em romper a barreira regional e adquirir densidade nacional.

O problema desse campo alternativo é conhecido: a dispersão. Separados, esses nomes acabam contribuindo para manter viva a polarização. Unidos em torno de um projeto e de uma narrativa nacional, poderiam construir uma terceira via competitiva. Até agora, porém, o centro e a centro-direita continuam enfrentando um velho dilema da política brasileira: excesso de ambições individuais, pouca convergência estratégica e dificuldade de transformar bons governadores em presidenciáveis robustos.

O fato central, contudo, parece ser outro. O eleitor brasileiro começa a demonstrar mudança de atitude. Já não se satisfaz apenas com marketing político, messianismo eleitoral, slogans ou guerras simbólicas. Busca propostas consistentes para a saúde pública, para o combate à violência, para o controle da inflação e para a recuperação da confiança institucional. Quer menos espetáculo e mais conteúdo. Menos culto à personalidade e mais capacidade de governar.

Por isso, a eleição de 2026 poderá representar a consolidação de uma nova etapa da cidadania eleitoral no país. O voto não deixará de carregar emoção, pois a política também envolve memória, identidade e sentimento. Mas tende a ser cada vez mais filtrado pela razão. E quando a razão entra na cabine eleitoral, a urna deixa de ser altar de paixões e passa a funcionar como tribunal de responsabilidades.

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.

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